Carlos e Pedro estavam no ponto de ônibus, voltando do futebol. O sol da tarde batia no asfalto. Pedro secou o suor da testa com a camisa.
Do outro lado da rua, uma menina passou empurrando um carrinho de bebê. Ela parecia jovem. Mochila nas costas, uniforme de escola. O bebê chorava.
Pedro olhou. Não disse nada.
O ônibus chegou. Subiram. Sentaram no fundo.
— Quantos anos ela tem? — Carlos perguntou.
— Quem?
— A menina com o bebê.
Pedro pensou. — Uns dezesseis.
— Como você sabe?
— Ela estuda no Colégio Estadual. O uniforme é igual ao do ano passado.
Carlos assentiu. O ônibus balançou numa curva.
— Você já pensou sobre isso? — Carlos perguntou.
— Sobre o quê?
— Sobre ter um filho agora.
Pedro riu. — Claro que não. Tô no primeiro ano.
— Sei. Mas pensei na sua idade também. E não é sobre agora. É sobre achar que nunca vai acontecer.
Pedro parou de rir.
— Na sua turma, alguém já transou? — Carlos perguntou.
Pedro corou. — Pai.
— Não precisa me contar detalhe. Só quero saber se o assunto aparece.
— Aparece. — Pedro olhou pela janela. — Alguns falam que sim. Outros mentem.
— E você, já pensou em como se prevenir?
O silêncio se esticou por duas paradas de ônibus.
— Camisinha — Pedro disse baixo.
— Isso. Sabe onde consegue?
— No posto.
— Sabe usar?
Pedro arregalou os olhos. — Pai.
— É uma pergunta honesta. Saber usar é diferente de saber que existe.
Pedro coçou a nuca. — A gente aprende na escola.
— Aprende? Ou mostra um desenho numa cartolina e todo mundo morre de vergonha?
Pedro riu. — A segunda opção.
Carlos também riu. — Pois é. Então deixa eu te falar uma coisa: camisinha não previne só gravidez. Previne doença também. E não é negociável. Se a pessoa não quiser usar, você não faz.
— Eu sei.
— Saber e fazer são coisas diferentes. — Carlos virou o corpo no banco. — Olha, eu não vou te dar sermão. Mas vou te falar o que ninguém me falou na sua idade: ter filho é bom. Mas ter filho sem querer, sem planejar, sem estrutura, muda sua vida num nível que você não imagina.
Pedro olhou para o pai.
— Você não me teve planejado, né?
Carlos respirou fundo. — Não. Mas você foi a melhor coisa não-planejada que me aconteceu. Só que eu tive sorte. Muita gente não tem.
O ônibus parou. Eles desceram.
Caminharam em silêncio até o prédio.
— Pai.
— Fala.
— Obrigado.
— De nada.
Subiram as escadas. O sol já tinha virado laranja.
*Continua em: livreto-089.md — Luísa — Relacionar com amigos dos filhos*