Sábado de manhã. A luz entrava pela cortina da sala. Luísa estava na cozinha preparando café quando viu a mochila do Pedro aberta no chão. O caderno de matemática amassado. O estojo aberto, canetas espalhadas.
— Pedro! — ela chamou.
— Oi?
Ele apareceu na porta da sala, o cabelo molhado do banho.
— Sua mochila está no meio da sala.
— Eu vou arrumar.
— Quando?
— Depois.
Luísa cruzou os braços. — Sabe o que o Miguel aprendeu essa semana?
Pedro franziu a testa. — O quê?
— Ele aprendeu a guardar o brinquedo depois de brincar.
Pedro revirou os olhos. — Tá me comparando com um bebê?
— Não. Estou dizendo que responsabilidade não é inata. Se aprende. E você já passou da idade de deixar a mochila no meio da sala.
Ele suspirou. Pegou a mochila. Levou pro quarto.
Luísa esperou. Ele voltou sem a mochila.
— Pronto — ele disse.
— E o caderno amassado?
— É só um caderno.
— É seu material. Se você não cuida, quem vai cuidar?
Pedro não respondeu. Luísa serviu o café. A caneca fumegou.
— Senta aqui — ela disse.
Ele sentou na bancada da cozinha. Relutante.
— Responsabilidade não é sobre tarefa — Luísa disse. — É sobre consequência. Se você não cuida da mochila, o caderno amassa, a folha rasga, você perde o dever. Quem sofre a consequência?
— Eu.
— Exato. Não sou eu. Não é seu pai. É você.
Pedro ficou em silêncio. O café passou pelo coador.
— Na minha idade — ele disse —, o que você tinha de responsabilidade?
Luísa pensou. — Aos quatorze? Eu tinha que cuidar do meu uniforme, do meu quarto, do meu horário de estudo. Minha mãe não fazia por mim. Ela dizia: *se você não fizer, ninguém vai fazer.*
— E você fazia?
— A maior parte do tempo. — ela sorriu. — Quando não fazia, aprendia do jeito difícil. Uma vez esqueci um trabalho em casa. Tirei zero. Minha mãe não levou pra escola.
— Ela podia ter levado.
— Podia. Mas aí eu nunca aprenderia.
Pedro ficou olhando pra caneca. — Então se eu esquecer o caderno amanhã, você não leva?
— Não levo. — Luísa tomou um gole de café. — Mas não é porque não me importo. É porque me importo.
Ele bufou. Mas tinha um meio sorriso.
— Tá bom. Vou arrumar a mochila.
— E o quarto?
— Depois do café.
— Depois do café então.
Pedro pegou uma caneca. Serviu café. O Toby veio lamber o pé dele.
Luísa observou. Aprendizado silencioso. O melhor tipo.
*Continua em: livreto-088.md — Carlos — Gravidez na adolescência*