Carlos chegou do trabalho e encontrou Pedro no quarto, deitado na cama, o celular na mão. A mochila no chão, o tênis jogado perto da cadeira. A Bíblia que a Dona Lúcia tinha dado estava fechada em cima da escrivaninha, com uma xícara em cima.
— Isso é marcador de página? — Carlos perguntou, apontando pra xícara.
Pedro olhou. — Esqueci ali.
Carlos puxou a cadeira e sentou. — A vó perguntou se você foi na missa domingo passado.
— Não fui.
— Eu sei. — Carlos apoiou os braços nas pernas. — Por que não foi?
Pedro colocou o celular de lado. O silêncio encheu o quarto.
— Eu não sei se acredito — ele disse.
Carlos não respondeu na hora. A frase ficou pairando.
— Não acredita em Deus?
— Não sei. Acho que sim. Mas não do jeito que a vó acredita. Do jeito que vocês acreditam.
— Que jeito é esse?
— De ir na missa todo domingo. De rezar antes de comer. De pedir pra Deus resolver tudo. — Pedro virou na cama, sentou. — Parece que todo mundo segue porque sempre seguiu. Ninguém pergunta se faz sentido.
Carlos respirou fundo. A voz da mãe dele ecoou na cabeça: *"Você tem que levar ele na igreja, Carlos. É obrigação sua."*
— Eu não vou te obrigar a ir — Carlos disse.
Pedro ergueu a sobrancelha.
— Sério?
— Sério. Mas quero entender. Você parou de acreditar ou parou de concordar com o formato?
Pedro pensou. — O formato. Acho. Não sei se Deus existe ou não. Mas sei que a igreja que eu conheço não responde as perguntas que eu tenho.
— Que perguntas?
— Por que tanta gente usa a religião pra julgar os outros. Por que algumas coisas são pecado e outras não. Quem decide isso.
Carlos encostou na cadeira. O filho tinha quatorze anos e já fazia perguntas que ele mesmo nunca tinha feito em voz alta.
— Você quer conversar sobre isso? — Carlos perguntou.
— Com você?
— Comigo. Ou com alguém que entenda mais. Um padre, um professor, alguém.
Pedro ficou em silêncio. Depois balançou a cabeça.
— Talvez com você primeiro.
Carlos assentiu. — Então vamos. Mas uma coisa: sua avó se preocupa. Não é sobre religião pra ela. É sobre você. Não confunde as duas coisas.
— Eu sei.
— Saber é diferente de sentir.
Pedro pegou a Bíblia na escrivaninha, tirou a xícara. Colocou no criado-mudo.
— Pode deixar aí — ele disse.
Carlos levantou. Bateu levemente no ombro do filho antes de sair.
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