Como conversar sobre divórcio com os filhos?

Luísa

A noite estava morna. Luísa tirou a louça da pia e enxugou as mãos no pano de prato. Lá fora, na sala, Carlos e Pedro viam um documentário sobre planetas. O Miguel já tinha dormido.

Pedro passou pela cozinha para pegar água. A camiseta larga, o cabelo mais comprido que da última vez.

— Posso te perguntar uma coisa? — Luísa disse.

Ele parou. — Claro.

— Como você se sente quando a gente fala da sua mãe?

Pedro segurou o copo. Não respondeu na hora. Tomou um gole.

— Normal — ele disse.

— Normal como?

— Normal. Ela é minha mãe. Vocês são... vocês.

Luísa apoiou as mãos na bancada. — Sabe que você pode falar sobre isso, né? Divórcio não é um assunto proibido aqui.

— Eu sei.

— Mas você não fala.

Pedro olhou para o copo. — Não tem o que falar. Eles se separaram. Faz tempo. Eu era pequeno.

— E te marcou?

Ele encolheu os ombros. — Marcou. Mas não é como se fosse todo dia. É mais... quando eu lembro.

Luísa esperou.

— Quando eu lembro que eles nunca moraram juntos. Que eu nunca vi eles na mesma casa. — ele riu sem graça. — É bobo.

— Não é bobo.

— Minha mãe fala mal do meu pai às vezes. Eu não gosto.

Luísa inclinou a cabeça. — Do que ela fala?

— Que ele não estava pronto. Que ele não ajudava. — Pedro encostou no balcão. — Eu sei que ele não estava pronto. Ele era novo. Mas ela fala como se fosse culpa dele sozinho.

— E você acha que não foi?

— Não sei. Só sei que os dois eram adultos. Os dois tomaram decisões.

Luísa ficou em silêncio. O som da TV baixa na sala.

— Você é muito justo, Pedro — ela disse.

Ele deu um sorriso pequeno.

— Obrigado.

— Pode continuar falando com a gente. Com seu pai. Comigo. Não precisa fingir que tá tudo bem se não tiver.

Ele assentiu. Terminou a água. Lavou o copo e colocou no escorredor.

— Boa noite, Luísa.

— Boa noite.

Ele saiu da cozinha. Luísa ficou olhando o copo no escorredor. Uma gota escorria pela borda.

*Continua em: livreto-086.md — Carlos — Filho não quer seguir religião*