A conversa veio num domingo à noite, quando o Pedro já estava com a mochila pronta para voltar para a casa da mãe. Ele ficou parado na sala, os tênis na mão, sem calçar.
— Pai, posso falar uma coisa?
Carlos estava na pia, lavando a louça do jantar. Enxugou as mãos no pano de prato.
— Pode.
— Eu tô pensando em morar com a mãe. Em tempo integral.
A luva de borracha escorregou da mão de Carlos e caiu na pia com um plop. Ele não pegou.
— Como assim?
— A faculdade fica mais perto da casa dela. Eu perco duas horas de ônibus todo dia. E ela falou que se eu morar lá, posso ficar com o quarto maior.
Carlos ficou parado. A água da torneira escorria, esquecida.
— Você quer ir porque é mais perto?
— Não é só isso. — Pedro colocou os tênis no chão. — É que… eu sinto falta dela. A gente se vê tão pouco. E eu tô crescendo, pai. Uma hora eu vou sair de casa de qualquer jeito.
Carlos sabia que aquilo ia acontecer um dia. O Pedro tinha quinze anos, logo dezesseis, logo dezoito. Mas ele não esperava que fosse agora.
— Você já pensou nisso direito?
— Já. Faz semanas.
— E por que você não me falou antes?
Pedro desviou o olhar.
— Porque eu sabia que você ia ficar triste.
Carlos respirou fundo. A cozinha estava silenciosa. O barulho da TV na sala, baixinho.
— Eu não vou mentir — Carlos disse. — Eu vou ficar triste. A casa já fica vazia quando você vai. Se você for de vez…
Ele não terminou a frase.
— Pai, não é para sempre. É enquanto a faculdade durar. Dois anos, três.
— E depois?
— Depois eu vou morar sozinho. — Pedro deu de ombros. — Ou com amigos. Sei lá.
Carlos sentou na cadeira da cozinha. A madeira rangeu.
— Você já conversou com sua mãe?
— Conversamos ontem. Ela disse que a decisão é minha.
— E o que você quer?
Pedro ficou em silêncio. Depois disse:
— Eu queria que não precisasse escolher.
Carlos olhou para o filho. O menino que cabia no braço dele agora era um rapaz de barba rala e ombros largos.
— Escuta — Carlos disse. — Se você quer ir, eu não vou impedir. Não é justo com você nem com a sua mãe. Mas quero que a gente faça direito.
— Direito como?
— Testar. Um mês. Você vai, vê como é. Se não der certo, volta. Sem culpa.
— E se der certo?
— Aí a gente organiza. Suas coisas, seus horários, suas visitas. Você continua vindo nos fins de semana, nas férias.
— Você não vai ficar com raiva?
— Vou ficar triste. — Carlos engoliu o nó na garganta. — Mas raiva, não. Você está crescendo. É assim que tem que ser.
O Pedro ficou parado. Depois deu dois passos e abraçou o pai.
Carlos sentiu o cheiro do shampoo do filho. O mesmo de sempre.
— Obrigado, pai — Pedro murmurou.
— Vai com calma. — Carlos apertou o abraço. — E me avisa quando chegar.
— Sempre aviso.
Pedro soltou, calçou os tênis, pegou a mochila. Na porta, virou:
— Pai?
— Fala.
— Eu vou sentir falta.
— Eu também.
A porta fechou. O elevador desceu. A casa ficou em silêncio.
Carlos ficou parado na cozinha, a água ainda correndo na torneira. Desligou. Secou as mãos no pano de prato. Respirou fundo.
Luísa apareceu na porta da cozinha, o Miguel dormindo no colo.
— Você está bem? — ela perguntou.
— Vou ficar.
Ela não disse nada. Só se aproximou e encostou a cabeça no ombro dele.
Carlos ficou ali, sentindo o peso da mulher e do filho menor contra o corpo.
A casa estava mais vazia. Mas não vazia demais.
*Fim da sequência: 070→084 — Adolescência, valores e família*