A mensagem chegou no celular da Luísa numa quarta-feira à tarde. Ela estava no estúdio, ajustando um layout no computador. O nome na tela: _Ana (mãe do Pedro)_.
Ela leu a mensagem.
_>Oi Luísa, tudo bem? O Pedro me disse que não vai poder vir no próximo fim de semana porque vocês têm um passeio. Tudo bem, mas queria saber se a gente pode conversar sobre as regras em cada casa. Ele está me dizendo uma coisa pra cada um._
Luísa ficou olhando para a tela. O cursor piscava no campo de resposta.
Ela e Ana nunca tinham sido próximas. Eram cordiais, se falavam o necessário. Não havia conflito aberto, mas também não havia intimidade.
Luísa respirou fundo. Respondeu:
_>Oi Ana, tudo bem. Claro, podemos conversar. Que horas é melhor pra você?_
A resposta veio rápido: _>Pode ser hoje às 18h? Por videochamada?_
_>Pode sim._
Quando a chamada começou, Luísa estava no escritório de casa. O rosto de Ana apareceu na tela. Cabelo preso, blusa preta, a estante de livros ao fundo.
— Obrigada por falar comigo — Ana começou.
— Imagina.
— Pedro chegou no domingo passado dizendo que aqui a gente libera celular até as dez, mas na casa do pai é até as onze. E que lá pode comer biscoito antes do jantar.
Luísa quase riu. O Pedro, com quinze anos, ainda tentando jogar um contra o outro por pequenas vantagens.
— Ele disse isso?
— Disse. E eu não sei se é verdade. Por isso estou perguntando.
— Não é mentira. — Luísa apoiou o cotovelo na mesa. — Mas não é a história completa. Aqui o celular é liberado até as onze nos fins de semana. Durante a semana, até as nove. E biscoito antes do jantar é permitido, mas só um.
— Ele falou como se fosse liberado geral.
— Ele é adolescente. A especialidade dele é contar meia verdade.
Ana riu baixinho.
— É. O moleque é bom.
— O Carlos e eu conversamos sobre as regras. Tentamos manter consistência. Mas cada casa é uma casa.
— E como a gente faz pra ele não usar isso contra a gente?
Luísa pensou.
— Acho que a gente conversa. As duas. E o Carlos. Alinhar o básico. Horário de celular, limites de tela, regras de alimentação. Não precisa ser igual, mas precisa ser combinado.
— E se a gente discordar?
— Aí a gente discorda como adultas. Na frente dele, a gente fala a mesma língua. Depois, se quiser, cada uma volta pra casa e faz do seu jeito.
Ana ficou em silêncio por um momento. Mexeu no cabelo.
— Você é mais sensata do que eu imaginava — ela disse.
— Você também. — Luísa sorriu. — A gente nunca tinha conversado assim.
— Pois é. Devia ter começado antes.
— Ainda dá tempo.
Elas combinaram de se falar uma vez por mês, só para alinhar. Desligaram a chamada com um "até mais" mais leve que o "oi" do começo.
Naquela noite, Luísa contou pra Carlos.
— Sua ex me ligou.
— O quê? — Ele arregalou os olhos.
— Calma. Foi bom. A gente conversou sobre as regras do Pedro.
— Vocês duas? Conversaram?
— É. — Luísa pegou a caneca de café. — Ela é mais legal do que eu pensava.
Carlos ficou olhando para ela, a boca entreaberta.
— O que foi? — ela perguntou.
— Nada. Só… inesperado.
— Pois é. — Ela deu um gole no café. — Mas talvez seja o que a gente precisava.
*Continua em: livreto-084.md — Carlos — Filho quer morar com outro progenitor*