Como não tratar o enteado de forma diferente?

Carlos

Era aniversário do Miguel. Cinco velinhas no bolo. A família reunida na sala. Dona Lúcia, Beto, Clarinha, e o Pedro, que tinha voltado da faculdade para a festa.

Na hora dos presentes, o Miguel abriu tudo com a energia de quem não dormia há dois dias. Ganhou um carrinho, um livro, uma bola.

— Agora você! — o Miguel apontou para o Pedro.

Carlos estranhou.

— Agora eu o quê? — Pedro perguntou.

— Seu presente!

O Pedro riu. Pegou uma caixa pequena que estava ao lado da mochila dele. Entregou para o Miguel.

— Feliz aniversário, maninho.

O Miguel abriu. Era um chaveiro de astronauta.

— É porque você quer ser astronauta — Pedro disse. — Pra você lembrar.

O Miguel pulou no pescoço do irmão.

Carlos assistiu a cena do canto da sala. Sentiu o coração apertado. Uma sensação estranha. Não era tristeza.

— O que foi? — Luísa apareceu ao lado.

— Nada. — Ele limpou a garganta. — Só… vendo eles.

— Você está com cara de quem vai chorar.

— Não estou.

— Está sim.

Ele virou para ela, os olhos úmidos.

— É que às vezes eu penso se eu trato eles igual.

— Trata.

— Eu trato? — Ele passou a mão no rosto. — Porque o Pedro é meu filho de sangue. O Miguel também. Mas às vezes eu fico com medo de, sem querer, dar mais atenção a um que ao outro.

— Você dá atenção diferente porque eles são diferentes. Não porque um é mais filho que o outro.

— Mas e quando o Pedro não está aqui? Será que ele sente que a gente tem uma vida sem ele?

— Ele sabe que a gente tem uma vida. Isso não significa que ele não faz parte dela.

O Pedro se aproximou com o Miguel no colo.

— Pai, ele quer ver o foguete que eu desenhei.

— Mostra pra ele.

O Pedro sentou no sofá com o irmão no colo. Abriu o caderno de rabiscos. O Miguel apontava para os desenhos, fazendo perguntas sem parar.

Carlos observou. O Pedro explicava com paciência, o braço em volta do irmão menor.

— Olha — Luísa disse baixinho. — Ele não está tratando o Miguel como meio-irmão. E você não está tratando o Pedro como enteado.

— Eu sei. Mas eu quero ter certeza.

— Certeza não existe. Existe intenção. E a sua é boa.

O Miguel apontou para o chaveiro de astronauta.

— Olha, pai, o Pedro me deu!

— Eu vi, filho. — Carlos sorriu. — Que legal.

— Quando eu crescer, vou viajar pra lua.

— Então leva o Pedro junto.

O Miguel pensou.

— Pode — ele disse. — Mas ele tem que pagar a passagem dele.

Todo mundo riu.

Carlos olhou para os dois filhos no sofá. O mais velho, quase adulto. O mais novo, ainda pequeno.

Não eram iguais. Mas eram igualmente dele.

*Continua em: livreto-083.md — Luísa — Autoridade com ex-cônjuge*