Era um sábado qualquer. O Miguel estava no chão da sala, rodeado de blocos de montar, construindo uma torre que já tinha quase um metro. O Pedro estava na faculdade agora, morava no alojamento, e vinha em casa a cada três semanas.
Luísa estava na poltrona da sala, uma caneca de chá nas mãos, olhando para o menino no chão.
— Você está distante hoje — Carlos disse. Estava no sofá, o Toby no colo.
— Estou pensando.
— No quê?
— Em quando ele sair.
Carlos seguiu o olhar dela. O Miguel estava tentando equilibrar uma peça verde em cima da torre.
— Ele tem cinco anos, Luísa.
— Eu sei. Mas passa rápido. Olha o Pedro. Parece que ontem ele tinha nove anos e estava naquele pula-pula no parque.
— E hoje ele está na faculdade.
— Exato. — Ela tomou um gole do chá. — E quando o Miguel fizer dezoito, o que a gente faz? A casa vai ficar vazia.
— Vai ficar. — Carlos coçou a orelha do Toby. — Mas a gente vai estar aqui. Juntos.
— E se a gente não estiver mais junto?
Ele virou o rosto para ela.
— Você está planejando alguma coisa?
— Não. — Ela riu baixinho. — Mas a vida muda. A gente não controla tudo.
O silêncio veio. O som dos blocos do Miguel no chão.
— Luísa, a saída dos filhos é estranha. — Carlos apoiou o queixo na mão. — A gente passa anos criando, educando, se preocupando. E um dia eles vão. Que nem o Pedro. Eu lembro do primeiro fim de semana que ele passou fora de casa.
— Como foi?
— Péssimo. A casa ficou silenciosa demais. Eu fiquei andando de um lado pro outro sem saber o que fazer.
— E agora?
— Agora eu acostumei. Sinto falta, mas acostumei. E sei que ele está bem. Que ele volta quando pode.
— Miguel também vai.
— Vai. Mas ainda faltam muitos anos. E a gente vai aproveitar cada um deles.
O Miguel conseguiu encaixar a peça verde no topo da torre. A torre balançou, mas não caiu.
— Olha, pai! Olha, mãe!
— Lindo, filho — Luísa disse.
Carlos apertou a mão dela.
— Quando ele sair, a gente viaja. Vai pros lugares que a gente não pôde ir porque tinha criança pequena.
— Promete?
— Prometo.
Ela apertou a mão dele de volta.
O Miguel começou a construir uma segunda torre ao lado da primeira. O Toby levantou, deu uma volta, e deitou no colo de Luísa.
Ela acariciou a cabeça do cachorro. Olhou para o menino no chão. Olhou para o marido no sofá.
A casa estava cheia.
*Continua em: livreto-082.md — Carlos — Não tratar enteado diferente*