O Miguel tinha acabado de ganhar um dinheiro de aniversário da avó. Cinco notas de vinte, enfiadas num envelope amarelo. Ele segurava o envelope como se fosse um troféu.
— É meu? — ele perguntou.
— É seu — Carlos respondeu. — Mas você tem cinco anos. Não vai gastar sozinho.
O Miguel apertou o envelope contra o peito.
— É MEU.
— Calma, ninguém vai tirar. — Carlos sentou no chão da sala, na altura do menino. — Você quer ir no mercado comprar um brinquedo?
— QUERO.
— Então vamos fazer um trato.
O Miguel franziu a testa, desconfiado.
— Trato?
— Você separa o dinheiro em três partes. Uma pra gastar agora. Uma pra guardar depois. E uma pra dar.
— Dar?
— Você lembra da campanha do agasalho na escola?
Ele pensou. Lembrou.
— Pra quem precisa?
— Isso.
O menino concordou com a cabeça, mas a expressão ainda era de dúvida.
Carlos pegou três potinhos vazios da cozinha. Colocou na mesa. Pegou uma caneta e escreveu: GASTAR, GUARDAR, DOAR.
— Cada nota vai num pote — ele disse. — Você escolhe.
O Miguel pegou as notas. Contou nos dedos, com a ajuda do pai. Cinco notas de vinte. Cem reais.
— Quanto vai pra cada um? — Carlos perguntou.
— Pra gastar… quarenta. — O menino colocou duas notas no pote GASTAR.
— E pra guardar?
— Quarenta também. — Mais duas notas no pote GUARDAR.
— E pra doar?
Ele olhou para a última nota. Pegou. Colocou no pote DOAR.
— Vinte — ele disse.
— Vinte reais pra doar?
— É. — O menino olhou para o pai. — A tia da escola disse que tem criança que não tem cobertor.
Carlos sentiu um aperto no peito. Não era orgulho — era outra coisa. Uma mistura de surpresa e admiração.
— Vinte reais é bastante — ele disse.
— Mas eu tenho cem. E você disse que a gente divide.
Carlos não respondeu. Só colocou a mão na cabeça do filho e bagunçou o cabelo dele.
Na loja de brinquedos, o Miguel circulou entre as prateleiras com as duas notas de vinte na mão. Olhou um carrinho, um boneco, um jogo. Decidiu pelo carrinho. Dezenove reais.
— Sobrou um real — ele disse, no caixa.
— Guarda pro próximo mês.
O Miguel colocou a moeda de um real no bolso.
No domingo, ele foi com a Luísa até a igreja do bairro e deixou o envelope com os vinte reais na caixa de doações.
Carlos viu de longe. O menino soltou o envelope e voltou correndo, sorrindo.
— Pronto, pai.
— Pronto. — Carlos segurou a mão dele. — Vamos tomar sorvete?
— Pode gastar?
— Pode. Esse é por minha conta.
*Continua em: livreto-081.md — Luísa — Saída dos filhos de casa*