O que fazer quando o filho sofre bullying?

Luísa

O Pedro chegou da escola com a camisa rasgada no ombro. Não entrou pela porta dizendo nada. Passou direto pelo corredor, a cabeça baixa, a mochila arrastando no chão.

Luísa estava na cozinha. Viu o movimento. Esperou um minuto, depois foi até o quarto.

A porta estava entreaberta. Pedro estava sentado na cama, a camisa no colo, o rosto vermelho.

— Bateu? — ela perguntou, na porta.

Ele não respondeu.

Luísa entrou. Fechou a porta atrás de si. Sentou na cadeira do computador, que rangeu com o peso.

— Pedro, o que aconteceu?

— Nada.

— Não é nada. Sua camisa está rasgada.

Ele apertou os olhos. Mordeu o lábio. Ela conhecia aquela expressão — era a mesma que ele fazia quando era menor e não queria chorar na frente dela.

— Uns meninos — ele começou. A voz falhou. — Na saída.

— O que eles fizeram?

— Gozaram do meu cabelo. Da minha mochila. Do meu tênis.

— E você revidou?

— Não. Quis. Mas não.

— Por que não?

— Porque… — Ele engoliu. — Porque você e meu pai sempre falaram pra não bater.

Luísa sentiu o peito apertar.

— Você fez certo em não bater. Porque bater podia ter piorado.

— E o que eu faço? Fico quieto?

— Não. — Ela se inclinou para a frente. — Você conta. Pra mim, pro seu pai, pra coordenadora. Não é dedurar. É pedir ajuda.

— Eles vão me chamar de dedo-duro.

— Eles já estão te chamando de outras coisas. O nome que eles te chamam não vai mudar se você ficar calado.

O Pedro olhou para a camisa rasgada. Passou o dedo no rasgão.

— O que a coordenação vai fazer? — ele perguntou.

— Conversar com eles. Chamar os pais. Se precisar, mudar de horário, de sala. Não é garantia que vai parar, mas é o começo.

— E se continuar?

— Aí a gente pensa no próximo passo. Mas a gente não passa o próximo passo sozinho.

Ele levantou a cabeça. Olhou para ela.

— Você acha que eu sou fraco?

— Não. — Luísa respondeu na hora. — Eu acho que você é forte. Porque continuar indo pra escola sabendo que vão te zoar é mais difícil que desistir.

O silêncio durou alguns segundos.

— Você vai contar pro meu pai? — ele perguntou.

— A gente conta junto. Na hora do jantar.

— Ele vai ficar bravo.

— Ele vai ficar preocupado. — Ela corrigiu. — E vai querer resolver. Mas a gente resolve junto.

O Pedro respirou fundo. Dobrou a camisa rasgada e guardou no fundo do guarda-roupa.

— Pode fechar a porta quando sair? — ele pediu.

— Pode.

Luísa saiu. Fechou a porta devagar.

Na cozinha, ela ficou parada, olhando para a parede, sentindo o peso da conversa.

Aquela noite, no jantar, quando o Miguel já tinha dormido, o Pedro contou tudo de novo, agora para os dois. Carlos escutou sem interromper. Quando o filho terminou, ele colocou a mão no ombro dele.

— Amanhã a gente vai na escola. Eu, você e a Luísa.

O Pedro não respondeu. Mas não discordou.

*Continua em: livreto-080.md — Carlos — Educação financeira*