No parquinho do bairro, uma menina de cabelo crespo brincava no balanço. O Miguel, no colo do Carlos, apontou com o dedinho.
— Cabelo diferente, pai.
Carlos olhou. A menina tinha talvez cinco anos, o cabelo preso em dois coques fofos, a pele marrom-clara brilhando no sol.
— É. É diferente do seu, né? — Carlos respondeu.
— Bonito — o Miguel disse.
— Muito bonito.
A cena era simples, mas Carlos sentiu o peso daquele momento. O Miguel estava crescendo num mundo que ele, Carlos, não sabia explicar completamente.
Na volta para casa, de mãos dadas pela calçada, o Miguel perguntou:
— Pai, porque tem gente de cor diferente?
Carlos respirou fundo. Engoliu a resposta automática de "porque Deus fez assim". Não que fosse mentira, mas não era só isso.
— Senta aqui. — Ele apontou para um banco da praça. Sentou com o Miguel no colo. — Você sabe que a gente tem cores diferentes, né? Papai é mais clarinho, a mamãe Luísa é mais clarinha, o Pedro também.
— O Toby é caramelo.
— O Toby é caramelo. — Carlos riu. — Isso mesmo. E os humanos também têm cores diferentes. Tipo sorvete. Tem de baunilha, de chocolate, de morango. Todos são sorvete. Todos são gente.
— Todas as cores são bonitas?
— Todas. — Carlos segurou a mão do menino. — E o que importa não é a cor. É o que a pessoa tem aqui dentro. — Ele tocou o peito do Miguel.
— Coração?
— Isso. Coração.
O Miguel pareceu satisfeito. Pulou do colo e correu atrás de um pombo.
Carlos ficou olhando. O sol batia no rosto dele.
Naquela noite, ele contou a cena para Luísa.
— Ele perguntou sobre cores — ele disse. — E eu tentei explicar.
— E como você explicou?
— Falei de sorvete.
— Sorvete? — Ela riu. — Funcionou?
— Funcionou. Mas eu fiquei pensando… quando ele for maior, a conversa vai ser mais complexa. Racismo. Preconceito. Coisas que sorvete não explica.
— É. — Luísa apoiou o queixo na mão. — Mas você não precisa ter todas as respostas hoje. O que importa é que você não desviou da pergunta. É o primeiro passo.
— E o próximo?
— Próximo é ele conviver com pessoas diferentes. Na escola, no prédio, na rua. A gente não precisa dar palestra sobre diversidade. A gente precisa viver ela.
Carlos olhou para o Miguel, no chão da sala, brincando com blocos. Os blocos eram de várias cores.
O menino pegou um azul e um vermelho. Encaixou.
— Pronto — ele disse, sozinho.
— Pronto — Carlos repetiu, baixinho.
*Continua em: livreto-079.md — Luísa — Filho que sofre bullying*