Luísa estava no quarto do Miguel, dobrando roupas pequenas demais. O bebê tinha crescido rápido demais. Os macacões novos já estavam apertados.
Ela segurou um bodies amarelo, quase novo, e pensou em guardar para um possível segundo filho. O pensamento veio e passou.
A mãe dela, Dona Margô, tinha dito na última visita: "Ele vai ser filho único ou vocês vão ter mais?"
Luísa não respondeu na hora. Disse que não sabiam ainda.
Mas a pergunta ficou.
Ela sentou na cama do quarto, as roupinhas no colo, a luz da tarde entrando pela cortina. Lembrou da própria infância. Ela era filha única. Os pais trabalhavam o dia inteiro. Ela passava as tardes sozinha, desenhando.
— Você desenhava bem — ela murmurou, lembrando.
Carlos apareceu na porta.
— Desenhava bem o quê?
— Nada. Pensando alto.
Ele entrou. Sentou ao lado na cama.
— O que foi? — ele perguntou.
— Sua mãe perguntou se a gente vai ter outro filho.
— A Dona Margô?
— É.
— E você está pensando nisso?
Ela olhou para o body amarelo.
— Fico pensando se o Miguel vai se sentir sozinho. Filho único. Eu fui. E eu lembro como era.
— Como era?
— Bom em alguns aspectos. Eu tinha toda a atenção dos meus pais. Não precisava dividir nada. Tinha meu espaço, meu quarto, minhas coisas.
— Parece bom.
— Era. Mas também era solitário. Eu passava horas no quarto, desenhando, imaginando amigo. Criava histórias. Meus pais estavam em casa, mas estavam ocupados.
— Você acha que o Miguel vai se sentir assim?
— Não sei. — Ela colocou o body no monte. — A gente está mais presente que meus pais estavam. O Pedro vem nos fins de semana. Ele tem meio-irmão.
— Pois é. Pedro é irmão.
— Meio-irmão. E quatorze anos mais velho. Quando Miguel tiver dez, Pedro já vai estar na faculdade.
Carlos ficou em silêncio.
— Você quer ter outro filho? — ele perguntou.
— Não sei. Às vezes sim, às vezes não. Acho que o que me preocupa não é se ele vai ser realmente sozinho. É se ele vai se sentir.
— E o que a gente pode fazer?
Luísa pensou.
— Presença. Estar ali. E se ele quiser um irmão, a gente considera.
— E se não quiser?
— Aí a gente deixa ele escolher os amigos. A família que ele constrói.
No corredor, o choro do Miguel começou, fininho, acordando do cochilo.
Luísa levantou. Antes de ir, olhou para Carlos.
— Não é sobre quantidade de filhos — ela disse. — É sobre qualidade de presença.
— Isso a gente pode dar — ele respondeu.
Ela foi atender o Miguel com o body amarelo ainda na mão.
*Continua em: livreto-078.md — Carlos — Família multirracial*