O Pedro tinha ido embora no domingo à noite. A mochila nas costas, um aceno rápido, a porta do elevador fechando. Carlos ficou parado no corredor, ouvindo o barulho do elevator descendo.
— Ele tá bem — Luísa disse.
— Tá.
— Você não parece convencido.
Carlos virou. Foi para o sofá. Sentou com o peso de quem carrega uma lembrança antiga.
— Eu fiquei pensando — ele começou. — Em como foi apresentar você pra ele.
Luísa sentou ao lado. Não respondeu. Esperou.
— Eu estava nervoso. Muito. Pedro tinha nove anos. A mãe dele e eu estávamos separados há três. E eu ia apresentar uma mulher nova na vida dele.
— Você estava com medo da reação.
— Medo. — Carlos repetiu a palavra. — Medo que ele não aceitasse. Medo que ele se sentisse trocado. Medo de estar fazendo a coisa errada.
— E o que você fez?
— Esperei. Pensei em como faria. Li sobre o assunto. — Ele riu baixinho. — Você lembra que eu marquei um encontro num parque? Lugar neutro. Sem pressão. Sem clima de encontro romântico.
— Lembro. Tinha um pula-pula. O Pedro passou a tarde pulando.
— Ele suou a camiseta inteira. Você comprou água de coco pra ele.
— Eu lembro.
— Pedro chegou em casa e disse: "Ela é legal, pai."
Luísa sorriu.
— E você ficou aliviado.
— Aliviado não. — Carlos respirou fundo. — Eu chorei no banheiro depois que ele dormiu. Foram dois meses de ansiedade resolvidos numa frase de cinco palavras.
O silêncio caiu entre os dois. O barulho da rua entrava pela janela, distante.
— Você fez certo — Luísa disse. — Apresentou devagar. Não forçou. Deixou ele conhecer do jeito dele.
— Eu li que não se deve apresentar namorados novos até ter certeza de que o relacionamento é sério. Evitar que a criança crie vínculo com alguém que vai embora.
— E você teve certeza?
— Tive. — Ele olhou para ela. — Quando? Não sei. Talvez no terceiro mês. Talvez quando você perguntou como ele estava na escola.
— Eu só queria saber.
— Eu sei. Mas foi isso. A pergunta genuína. Não era formalidade.
Luísa apoiou a mão no braço dele.
— E se um dia o Miguel tiver que passar por isso? Uma madrasta ou padrasto?
— Espero que ele não precise. Mas se precisar, — Carlos segurou a mão dela — eu vou fazer igual. Neutro. Devagar. Respeitando o tempo dele.
— E se ele não aceitar?
— Aí a gente espera mais. Não tem atalho.
O Toby levantou a cabeça, olhou para os dois, e tornou a deitar.
Carlos apertou a mão dela.
— Você foi a primeira e única pessoa que eu apresentei ao meu filho — ele disse. — E ainda é.
*Continua em: livreto-077.md — Luísa — Filho único e solidão*