A briga começou no supermercado. O Miguel, no carrinho, começou a bater a mão no peito pedindo biscoito. Um pacote colorido na prateleira da esquerda.
— Pode não — Carlos disse. — Já comeu doce hoje.
O Miguel franziu o rosto. Preparou o berro.
Luísa, do outro lado do corredor, ouvindo a cena, teve o impulso de intervir. Quase foi lá. Parou.
Se ela fosse agora, dois minutos depois, eles estariam discutindo na frente do caixa. Ela conhecia o padrão: Carlos dizia não, ela explicava o motivo do não de novo, Carlos se sentia desautorizado.
Ela ficou onde estava. Olhou para a lista de compras.
O berro veio. Cresceu. Ecoou pelo corredor. Ela mordeu o lábio. Não foi.
Três minutos depois, o berro parou. Carlos apareceu na esquina do corredor com o Miguel no colo, o biscoito fora do carrinho, a criança acalmando.
— Ele queria o biscoito — Carlos disse.
— Eu ouvi.
— Você não veio.
— Você estava resolvendo.
Carlos colocou o Miguel de volta no carrinho. A criança agarrou o cinto de segurança com as duas mãos.
— Obrigado — Carlos disse. — Por não vir.
— Vinte segundos — Luísa respondeu. — Eu quase vim.
— E por que não veio?
— Porque se eu viesse, a gente ia discutir na frente das prateleiras. E ele ia perceber que pode usar um contra o outro.
Carlos ficou em silêncio. Olhou para o carrinho, depois para ela. O Miguel já tinha esquecido o biscoito e estava olhando um saco de laranjas.
— A gente precisa alinhar isso — Luísa continuou. — As regras. Os limites. Pra não virar eleição.
— Eleição?
— O Miguel aprender a votar entre o sim do papai e o sim da mamãe.
A tarde passou e o assunto voltou à noite, quando o bebê já tinha dormido. Os dois estavam na sala, o Toby deitado no tapete.
— Eu acho que a gente devia combinar as regras antes de aplicar — Luísa disse. — Tipo reunião de pais, mas sem plateia.
— Você decide comigo, vem de um lugar só — Carlos completou.
— Isso. Mesmo que a gente discorde. Depois, no quarto, a gente resolve a discordância. Mas na frente dos filhos, é um time só.
Carlos mexeu o café na caneca.
— É mais difícil do que parece.
— É. Mas o contrário é pior.
— Qual contrário?
— Cada um puxar pra um lado. O menino crescer sem saber qual regra vale.
O ventilador de teto girava devagar. O Toby bocejou.
— Combinado — Carlos disse.
— Combinado.
Ela estendeu a mão. Ele apertou.
— Reunião de pais toda segunda? — ela perguntou.
— Toda segunda. depois do jantar.
— E se a gente discordar?
— A gente discorda. Mas não no jantar. Nunca no jantar.
O silêncio veio, mas era um silêncio bom. O tipo que vem depois de um acordo que os dois sabem que vão cumprir.
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