O comercial de Natal passava na TV. Brinquedos, promoções, crianças sorrindo. O Miguel estava no chão da sala, rodeado de blocos de montar, concentrado em encaixar uma peça amarela na base vermelha.
Carlos olhou para o filho e depois para a tela. Uma bicicleta elétrica aparecia no anúncio, o preço em letras garrafais.
— Toda hora é hora de comprar alguma coisa — ele murmurou.
Luísa estava na cozinha cortando uma cebola. A faca batia na tábua em ritmo constante.
— O quê?
— Nada. Só pensando no Natal.
— Já? Estamos em outubro.
— Natal começa em setembro no comercial.
Ela riu, mas Carlos estava sério. Ele desligou a TV. Ficou olhando para o Miguel, que agora tentava equilibrar três blocos um em cima do outro.
— Luísa, eu não quero que o Miguel cresça achando que ganhar presente é obrigação.
— Isso é conversa para daqui uns anos. Ele tem um ano.
— Mas o Pedro já cresceu. E eu vejo como ele lida com dinheiro. Não é culpa dele — é meu. Eu sempre dava o que ele pedia quando eu não podia estar presente. Pra compensar.
Luísa parou de cortar a cebola. Passou o antebraço nos olhos.
— E você acha que compensar com presente estraga?
— Acho. — Carlos virou para ela. — Lembra quando eu dei aquele videogame caro pra ele aos onze anos? Eu estava trabalhando dobrado, mal via ele. Era mais fácil comprar do que sentar e conversar.
— Você estava fazendo o que podia.
— Eu estava fazendo o mais fácil. — Ele mexeu na caneca de café vazia na mesa. — Agora toda vez que ele quer algo, ele pede. E eu quero dar. Mas se eu der sempre, ele vai crescer achando que as coisas vêm sem esforço.
O Miguel conseguiu equilibrar os três blocos. Bateu palmas sozinho. Carlos sorriu, mas a preocupação continuou no fundo.
— O que você sugere? — Luísa perguntou.
— Não sei. Talvez… separar presente de afeto. Não é porque eu não comprei algo que eu não amo. E quando eu comprar, que tenha significado.
— Tipo um presente que ele pediu, não o que a loja empurra.
— Isso. E ensinar que se ele quer algo grande, a gente trabalha junto pra conseguir. Mesada, poupança, planejamento.
Luísa voltou a cortar a cebola.
— Isso funciona pro Miguel. Mas e pro Pedro?
— Pro Pedro também. Ele já tem idade pra entender.
Naquela noite, Carlos sentou com o Pedro na mesa da cozinha. Pediu uma folha de papel.
— Vamos fazer uma lista de coisas que você quer. — Ele desenhou três colunas. — O que você precisa, o que você quer e o que seria legal ter.
O Pedro pegou a caneta. Começou a escrever.
Na coluna do "quer", ele colocou um tênis novo.
— Quanto custa? — Carlos perguntou.
— Não sei. Umas trezentos reais.
— Se você guardar vinte reais por semana da mesada, em quinze semanas você compra.
— Quinze semanas? — Pedro franziu a testa.
— É. Se você quiser, eu posso ajudar com a metade no final. Mas a outra metade é sua.
O Pedro olhou para o número. Calculou mentalmente.
— Quinze semanas — ele repetiu. — Até fevereiro.
— Fevereiro chega rápido.
O Pedro não respondeu. Mas guardou o papel no bolso.
Na manhã seguinte, Carlos encontrou o papel na mesa da cozinha. O Pedro tinha circulado a data de fevereiro no calendário da parede.
*Continua em: livreto-075.md — Luísa — Dividir educação com cônjuge*