Eram oito da noite e a mesa da sala estava coberta de livros. Física, química, matemática. O caderno do Pedro aberto na página em branco, a caneta mordida, a expressão fechada.
— Não consigo — ele disse.
Luísa estava no sofá, o notebook no colho, o trabalho do estúdio aberto na tela. Ela levantou os olhos.
— O que você não consegue?
— Essa matéria. — Ele empurrou o caderno para longe. — Não entra na minha cabeça. Não adianta.
— Você leu o capítulo?
— Li. Duas vezes. — Ele passou a mão no rosto. — Não entra.
Luísa fechou o notebook. Colocou na mesa de centro. Levantou e foi até a mesa da sala. Sentou na cadeira ao lado do Pedro.
— Me mostra o que você está tentando fazer.
Ele virou o livro para ela. Equações de segundo grau. Báskara.
— É matemática — ele disse. — E eu sou péssimo em matemática.
— Você não é péssimo. Você está com dificuldade. São coisas diferentes.
— Pra mim é a mesma coisa.
Luísa leu a primeira equação. Respirou fundo. Lembrou da própria época de escola, da sensação de impotência diante de algumas matérias.
— Que parte você não entendeu?
— Tudo. — Ele apontou para a fórmula. — Isso aqui parece grego.
— Vamos por partes. Qual é o primeiro passo?
— Identificar o a, o b e o c.
— Então identifica.
Ele fez. Errou o sinal do b. Luísa apontou com o dedo.
— Aqui. O b é negativo. Lembra?
Ele franziu a testa. Leu de novo. Corrigiu.
— Agora o que vem depois?
— Joga na fórmula.
— Então joga.
Ele começou a escrever. Devagar, os números saindo trêmulos. Errou um sinal no meio do caminho. Luísa esperou ele terminar antes de falar.
— Vamos conferir? — ela disse.
Ele conferiu. Achou o erro sozinho.
— Caramba — ele murmurou. Fez de novo. Correto.
— Viu? Não é que você não sabe. É que você desistiu antes de tentar direito.
O Pedro ficou olhando para o cálculo na folha.
— Você paciência — ele disse.
— Todo mundo tem dificuldade. A questão é o que você faz com ela.
Ele pegou a caneta de novo. Fez mais uma equação. Depois outra. Na quarta, já estava mais rápido.
Luísa ficou sentada ao lado, sem falar. Só observando. Quando ele terminou a lista, ela levantou.
— Se quiser, amanhã a gente revisa de novo. Mas acho que você já sabe mais do que pensava.
Ele olhou para o caderno. Seis equações resolvidas.
— Valeu, Luísa.
— Valeu.
Ela voltou para o sofá. Abriu o notebook. Mas antes de voltar ao trabalho, olhou para o Pedro, concentrado na apostila agora, os óculos de grau escorregando no nariz.
Ela sorriu baixinho.
*Continua em: livreto-074.md — Carlos — Presentear sem estragar*