O Pedro chegou da escola com um folheto na mochila. Uma faculdade particular, curso de design de jogos digitais. A tarde de sábado estava parada, o sol entrando pela janela da sala, o Miguel dormindo no carrinho.
— Pai, olha isso. — Pedro estendeu o papel.
Carlos pegou o folheto. Leu as informações. Curso noturno, dois anos e meio, mensalidade salgada.
— Design de jogos? — ele repetiu.
— É isso que eu quero fazer.
Carlos sentou no sofá. O folheto na mão, os olhos fixos no papel.
— Você falou com a orientadora vocacional?
— Falei. Ela disse que tem mercado. Que o Brasil é um dos maiores mercados de games do mundo.
— Mas é um curso tecnólogo, não é bacharelado.
— E daí? — Pedro sentou na poltrona na frente dele. — O que importa é o que eu aprendo, não o nome do curso.
Carlos pensou no próprio caminho. Administração, faculdade tradicional, emprego estável. O caminho seguro. O que ele sempre imaginou para o filho.
Mas o Pedro não era ele.
— Você pesquisou a grade? — Carlos perguntou.
— Pesquisei. Tem programação, design, narrativa, produção de áudio. É bem completo.
— E a empregabilidade? O que os formados fazem?
Pedro abriu o celular. Leu anotações que ele mesmo tinha feito. Nomes de estúdios brasileiros que contratavam, salários médios, possibilidade de trabalho remoto.
Carlos escutou. O filho falava com entusiasmo, os olhos brilhando, os gestos mais soltos que o normal.
— Pai, eu não quero fazer um curso que eu odeio. — Pedro parou de falar. A voz baixou. — Eu passei o ano inteiro pensando nisso.
— Eu sei.
— Eu só queria que você apoiasse.
Carlos olhou para o filho. Lembrou da própria juventude, da pressão que sentiu para escolher um curso "de verdade". Lembrou das noites em claro estudando matéria que não despertava interesse, só pela segurança.
— Eu apoio — ele disse.
Pedro ergueu a cabeça.
— Sério?
— Mas quero que você pesquise mais. Visite a faculdade. Converse com alunos de lá. E quero que a gente monte um plano financeiro — vamos ver o que cabe no orçamento, o que você pode contribuir quando começar a estagiar.
— Pode ser meio período no sábado? — Pedro perguntou.
— Pode ser o que for. Só não quero que você entre sem saber onde está pisando.
O Pedro ficou quieto por um instante. Depois sorriu.
— Valeu, pai.
— Valeu, filho.
Carlos devolveu o folheto. O Pedro guardou na mochila, cuidadosamente, sem amassar as bordas.
No domingo, Carlos encontrou o Pedro no computador pesquisando sobre a faculdade. Tinha aberto uma planilha no Google Sheets com os custos, horários, matérias.
Carlos parou na porta do quarto e observou. O filho estava sério, concentrado, anotando números.
Ele não disse nada. Só fechou a porta devagar para não atrapalhar.
*Continua em: livreto-073.md — Luísa — Filho que não quer estudar*