A camiseta nova do Pedro estava no chão do banheiro. Molhada. Luísa pegou com a ponta dos dedos, olhou para a peça amassada, e sentiu a irritação subir pelo peito.
— Pedro! — ela chamou.
Ele apareceu na porta do quarto, fones no pescoço, uma expressão de tédio no rosto.
— O que foi?
— Sua camiseta está no chão do banheiro. Molhada.
— E?
Luísa segurou a língua por um segundo.
— E não é assim que se trata a roupa dos outros. A camiseta é nova. Você pediu, eu comprei.
— Tá bom, eu pego. — Ele revirou os olhos. Devagar, como se quisesse que ela notasse.
— Esse olhar não é necessário.
— Que olhar?
— Esse. O de deboche.
Ele bufou. Pegou a camiseta do chão com dois dedos, como se estivesse pegando lixo, e jogou no cesto do quarto.
— Pronto. Feliz?
Luísa ficou parada no corredor. Os fones voltaram para os ouvidos do Pedro. Ele entrou no quarto e fechou a porta.
Ela respirou fundo. Foi para a cozinha. Começou a lavar a louça com força, a esponja esfregando o prato em círculos rápidos.
Carlos chegou na cozinha com o Miguel no colo.
— Ouvi o barulho — ele disse.
— Ele me trata como se eu fosse… um incômodo.
— Ele trata todo mundo assim essa semana. Até o Toby levou um pé quando tentou deitar no colo dele.
Luísa não riu.
— Carlos, eu não sou mãe dele. Eu entrei na vida dele quando ele já tinha quase dez anos. Eu não tenho autoridade natural.
— Você tem a autoridade que você construiu com ele nesses anos.
— Mas ele está me testando.
— Claro que está. É adolescente. Ele testa todo mundo. — Carlos apoiou o bebê no ombro. — Pedro te respeita. Mas respeitar não é obedecer calado.
— E o que eu faço? — Ela parou de lavar a louça. Virou para ele. — Cada conversa vira um confronto.
— Você pode escolher quais confrontos ter.
Luísa franziu a testa.
— O que isso significa?
— A camiseta no chão — Carlos disse. — É importante? Tipo, importante importante? Ou é chato mas não é o fim do mundo?
— É desleixo.
— É. Mas é desleixo de adolescente. Você pode brigar toda vez que ele deixar uma peça de roupa no chão, ou pode escoluir um limite maior e deixar os pequenos aborrecimentos passarem.
Ela ficou em silêncio. A torneira pingava.
— Eu não quero virar a madrasta chata — ela disse baixinho.
— Você não é. — Carlos encostou o ombro nela. — Mas se você brigar por tudo, ele vai ouvir só o barulho. Escolhe o que vale a pena.
O quarto do Pedro estava em silêncio agora. De dentro, o som baixinho de música.
Luísa secou as mãos. Foi até a porta do quarto dele. Bateu.
— Pedro?
— O quê?
— A camiseta está no cesto?
— Tá.
— Obrigada.
Do outro lado da porta, um silêncio surpreso. Depois:
— De nada.
Luísa voltou para a cozinha. Carlos estava sentado à mesa com o Miguel, um sorriso no canto da boca.
— O que foi? — ela perguntou.
— Nada. — Ele mexeu o café. — Só achei bonito.
Ela sentou na cadeira ao lado. Respirou fundo.
A música do quarto do Pedro tinha mudado para uma mais calma.
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