A noite de sexta-feira tinha acabado em porta batida. Carlos ficou parado no meio da sala, a mão ainda no ar, o barulho do quarto do Pedro ecoando pelo corredor.
— Ele se trancou — Luísa disse. Estava na ponta do sofá, o bebê no colo, a voz cansada. — Você foi duro com ele.
— Ele respondeu mal. — Carlos passou a mão na nuca. — Eu só pedi pra ele guardar o celular na hora do jantar.
— Você não pediu. Você mandou. Na frente do Miguel.
Carlos franziu a testa. Quis rebater, mas a lembrança veio nítida: a voz dele mais alta que o necessário, o dedo apontado para o prato, o Pedro revirando os olhos.
O silêncio da sala pesava. O Toby estava deitado no canto, o focinho entre as patas, os olhos acompanhando o movimento.
— Ele está errado — Carlos disse, mas a frase saiu mais baixa que ele esperava.
— Ele está errado. Você também. — Luísa acariciou a cabeça do Miguel. — As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Carlos respirou fundo. Olhou para o corredor. A luz do quarto do Pedro estava acesa, passando por baixo da porta.
Ele foi até lá. Parou na frente da porta. Ouviu o silêncio do outro lado.
Bateu. Leve, duas vezes.
— Pedro.
Nada.
— Pedro, eu quero conversar.
Uma pausa. Depois a voz do filho, abafada:
— Não tô a fim.
Carlos sentou no chão, as costas apoiadas na parede do corredor. A madeira do assoalho estava fria.
— Tudo bem. — Ele falou para a porta. — Mas eu vou ficar aqui. E vou falar sozinho, se você não quiser abrir.
Ele esperou. A porta não abriu.
— Eu errei — Carlos disse. A voz dele saiu diferente, sem o peso de antes. — Eu falei mais alto que devia. E falei na frente do Miguel. Não foi legal.
Silêncio.
— Você não merecia isso. Eu sei que você estava cansado, que a semana foi puxada. A resposta mal-educada foi errada, mas a minha reação foi pior. Pai não pode perder a cabeça assim.
Do outro lado da porta, um rangido. A cama.
Carlos continuou:
— Eu queria que você soubesse que eu vou tentar fazer melhor. E que… me desculpa.
O silêncio se estendeu por alguns segundos. Depois a maçaneta girou.
A porta se abriu uma fresta. O rosto do Pedro apareceu no vão.
— Desculpa também — ele murmurou.
Carlos levantou. Olhou para o filho. Os olhos do Pedro estavam vermelhos.
— Vem jantar — Carlos disse. — A comida está esfriando.
Pedro saiu do quarto. Os dois foram para a sala juntos. Luísa estava na mesa, o Miguel no colo, o prato do Pedro já servido.
Ninguém disse nada. Mas o silêncio agora era outro.
*Continua em: livreto-071.md — Luísa — Rebeldia adolescente*