Sábado de manhã. A feira estava cheia de barracas coloridas — verduras, frutas, flores. O Miguel andava na frente da Luísa, segurando a sacola de pano que a avó tinha dado.
— Mamãe, olha!
Ele apontava para uma banca de morangos. Os morangos estavam empilhados em bandejas, vermelhos e brilhantes.
— Lindo, né? — Luísa disse.
— Quero.
— A gente vai comprar. Espera a vez.
Uma mulher na frente pegou a última bandeja de morangos. O Miguel viu.
— Acabou — ele disse, a voz triste.
— Acabou. Mas tem outras coisas gostosas.
— Mas eu queria morango.
— Eu sei. — Luísa ajoelhou perto dele. — Mas a moça chegou antes. A gente pode comprar banana, ou maçã.
— Não quero banana.
— Tá bom. Mas não precisa ficar triste. A gente volta semana que vem e compra morango.
O Miguel ficou olhando a banca. O lábio tremia.
Luísa esperou. Não apressou. Não disse "para de manha". Só ficou perto.
Depois de um minuto, o Miguel suspirou.
— Vai, então — ele disse.
— Vai o quê?
— Vai comprar banana.
Luísa sorriu. Pegou a mão dele.
— Boa escolha.
Eles foram para a banca de bananas. O feirante sorriu.
— Oi, guri. Quanta banana?
O Miguel ergueu os braços.
— Muita.
— Muita é quantas?
— Seis.
O feirante riu. Colocou seis bananas na sacola.
— O que a gente diz? — Luísa perguntou.
— Obrigado.
— Isso.
Ela pagou. O Miguel segurou a sacola com as duas mãos, orgulhoso.
Caminharam até a banca de verduras. No caminho, uma senhora deixou cair uma laranja. A laranja rolou no chão.
O Miguel largou a sacola. Correu. Pegou a laranja. Entregou para a senhora.
— Tia, caiu.
A senhora se ajoelhou. O rosto dela se abriu num sorriso.
— Obrigada, meu anjo. Que gentileza.
O Miguel olhou para a Luísa. Ela sorriu.
— De nada — ele disse.
A senhora passou a mão na cabeça dele. Ele voltou correndo para perto da Luísa.
— Ela falou que eu sou anjo.
— Você é. — Luísa ajeitou o cabelo dele. — Você viu que ela precisava de ajuda e ajudou. Isso se chama gentileza.
— Gentileza?
— É. Cuidar do outro.
O Miguel pensou. Olhou para a sacola de bananas.
— O morango também precisava de ajuda?
— Como assim?
— A moça pegou. Fiquei triste. Mas a banana tava esperando.
Luísa riu. Uma risada gostosa, no meio da feira.
— É, filho. A banana estava esperando. E a gente comprou.
— E a senhora ficou feliz.
— Ficou.
O Miguel continuou andando, a sacola balançando na mão. O sol da manhã aquecia os dois.
— Mamãe.
— Fala.
— O que a gente vai ensinar hoje?
— O quê?
— O pai falou que a gente aprende coisa todo dia. O que a gente vai aprender?
Luísa parou no meio do corredor de feira. Olhou para o filho.
— Hoje você aprendeu gentileza. E paciência. — Ela se ajoelhou na frente dele. — E amanhã a gente aprende mais um pouco.
— O quê?
— Ainda não sei. Mas a gente descobre junto.
— Descobre junto. — Ele repetiu.
Luísa levantou. Pegou a mão dele. A feira continuava cheia, os feirantes gritando os preços, as cores se misturando.
Ela não precisava de um manual. Precisava de sábados como aquele.
*Fim da cena: bebê crescendo — valores, limites e família*