O supermercado estava cheio. Carrinhos, gente, buzina de empilhadeira ao fundo. Carlos estava na fila do caixa com o Miguel no carrinho, uma caixa de biscoito na mão do menino.
— Tira a mão, vai — Carlos disse, tentando colocar o biscoito de volta no carrinho.
— MEU!
— Não, Miguel. A gente não vai comprar biscoito hoje.
— QUERO!
A voz do Miguel subiu. A mulher na frente olhou para trás. Carlos sentiu o calor subir no rosto.
— Miguel, calma.
— QUERO BISCOITO!
O Miguel começou a espernear. As pernas batiam no plástico do carrinho. O corpo dele se arqueou para trás. A cara ficou vermelha.
Carlos olhou em volta. As pessoas olhavam. Uma criança no carrinho ao lado apontava.
— Miguel, para. — a voz de Carlos saiu baixa, tensa. — Pára agora.
O Miguel não parou. Choro alto, braços agitados. Uma senhora passou do lado, balançou a cabeça.
Carlos sentiu a vontade de gritar. De sacudir o carrinho. De sair correndo dali.
Ele respirou.
Primeiro, ele ignorou os olhares. Depois, ele ajoelhou — na frente do carrinho, no meio do corredor, com gente passando dos dois lados.
— Miguel. — A voz dele estava calma agora. — Olha pra mim.
O Miguel continuou chorando.
— Olha pro pai.
O Miguel abriu os olhos. As lágrimas escorriam.
— Você quer o biscoito?
— QUERO.
— Mas a gente não vai comprar hoje. Pode chorar. Pode ficar bravo. Mas não vai comprar.
— QUERO AGORA.
— Eu sei. Mas não vai.
Carlos ficou de joelhos. Esperou.
O choro continuou por mais um minuto. Depois dois. Depois começou a diminuir. Os soluços ficaram espaçados.
— Acabou? — Carlos perguntou.
— Acabou.
— Vem cá.
Ele puxou o Miguel para um abraço. O menino estava suado, o rostinho molhado. Carlos limpou o rosto dele com a manga da camisa.
— Dá biscoito? — o Miguel perguntou, a voz já mais baixa.
— Não. Mas em casa tem fruta. Você quer fruta?
— Morango?
— Morango.
O Miguel acenou. Carlos levantou. Pagou as compras. Colocou o Miguel no carrinho.
Quando saíram do supermercado, o ar da rua estava mais fresco. Carlos empurrou o carrinho até o carro. Abriu a porta. Colocou o Miguel na cadeirinha.
— Pai.
— Fala, filho.
— Desculpa.
Carlos parou. Olhou para o Miguel. O olho dele ainda estava vermelho.
— Tá desculpado.
— Birra?
— Birra. Acontece.
— Não faz mais?
— Faz sim. Você vai fazer birra de novo. É normal. A gente aprende junto.
O Miguel pensou. Depois apontou para o cinto de segurança.
— Prende.
Carlos prendeu. Fechou a porta. Sentou no banco da frente.
Olhou pelo retrovisor. O Miguel estava calmo agora, olhando pela janela.
Birra era difícil. Mas passava. E ele tinha passado sem gritar, sem bater, sem ceder. Só ficando ali, de joelhos, esperando.
O carro ligou. A noite começou.
*Continua em: livreto-069.md — Luísa — Ensinar valores no dia a dia*