O Miguel estava na frente da televisão, a cara colada na tela, os olhos vidrados no desenho. Carlos olhou o relógio na parede. Já tinha passado uma hora.
— Miguel, acabou o tempo de tela.
— Não.
— Sim, acabou. Vou desligar.
— NÃO.
Carlos pegou o controle. Desligou a TV. A tela ficou preta.
O Miguel virou. O rosto vermelho, os punhos cerrados.
— NÃO, PAI!
Ele avançou. Bateu na perna do Carlos com a mão aberta. Uma vez. Duas.
Carlos sentiu o impacto. Não doeu fisicamente. Mas a agressão apertou alguma coisa no peito dele.
Ele respirou. Ajoelhou.
— Filho, não bate.
— QUERO TV!
— Eu sei. Mas acabou. A gente combinou um desenho, e você já viu um.
— QUERO MAIS!
O Miguel bateu de novo. Dessa vez no ombro.
Carlos segurou as mãos dele com cuidado. Firmes, mas sem apertar.
— Não. Não bate. Pode ficar bravo, mas não bate.
O Miguel tentou soltar as mãos. Não conseguiu. Começou a chorar.
Carlos puxou ele para perto. Abraçou. O Miguel lutou no começo, os braços rígidos, o corpo tenso. Mas depois de alguns segundos, ele relaxou.
— Eu sei que você quer ver TV — Carlos disse, a voz baixa. — É gostoso. Mas a gente combinou. E combinado é combinado.
— TV… — o Miguel soluçou.
— Amanhã você vê de novo. Agora a gente vai brincar com os blocos. Ou com o Toby. O que você prefere?
O Miguel fungou. Limpou o nariz no ombro da camisa do Carlos.
— Toby — ele disse, a voz abafada.
— Toby então. Vamos chamar ele.
Carlos largou o abraço. O Miguel desceu do colo. Olhou em volta.
— Toby! — ele chamou.
O Toby apareceu do quarto, o rabo abanando. O Miguel sorriu. Saiu correndo atrás do cachorro, o choro esquecido.
Carlos ficou de joelhos no chão da sala. A respiração dele estava mais calma agora.
— Você segurou bem — a Luísa disse da porta da cozinha.
— Foi?
— Foi. Segurou as mãos, falou firme, e depois deu alternativa.
— Eu pensei em gritar. — Carlos levantou. — Pensei em dar um tapa na mão. Pensei em simplesmente ignorar.
— Mas não fez.
— Não. Eu me lembrei de quando o Pedro era pequeno. Meu pai dizia que menino não chora, que tem que ser firme. E eu fui firme do jeito errado. Fui duro.
— E hoje?
— Hoje eu quero ser firme sem ser duro. — Ele olhou para o Miguel, que agora estava no tapete com o Toby, o cachorro deitado no colo dele. — Limite com carinho, é o que a gente chama, né?
— É. — Luísa se aproximou. Apoiou a mão no braço dele. — E você conseguiu.
O Miguel riu alto porque o Toby lambeu o rosto dele.
— O limite funcionou — Carlos disse. — Ele só precisava de um abraço depois.
— A gente precisa também, às vezes.
Carlos olhou para ela. Abraçou a Luísa. Os dois ficaram parados na sala, vendo o filho brincar com o cachorro, a luz da tarde entrando pela cortina bege.
*Continua em: livreto-067.md — Luísa — Conversar sobre sexo*