O Miguel tinha derrubado o copo de suco no chão pela terceira vez naquela manhã. O líquido alaranjado se espalhou pelo porcelanato, formando uma poça que escorria para debaixo do sofá.
— Miguel! — a voz de Luísa saiu mais alta do que ela queria.
O Miguel congelou. Olhou para ela. O queixo começou a tremer.
— Não precisa chorar — ela disse, ainda com a voz alterada. — Foi sem querer, mas você precisa tomar cuidado.
O Miguel começou a chorar.
Luísa fechou os olhos. Respirou fundo. Contou até três mentalmente.
Ela tinha prometido que não ia repetir o padrão. Que não ia gritar como a mãe dela gritava. Mas na hora do nervoso, a voz escapava antes do pensamento.
— Tá, filho. Vem cá. — Ela ajoelhou. — Vem.
O Miguel foi. O rostinho molhado de lágrimas. Ela abraçou ele.
— A mamãe não devia ter gritado. Desculpa.
— Mamãe brava?
— Mamãe não está brava. Mamãe ficou frustrada. É diferente.
O Miguel apertou o abraço.
— Mas você não pode derrubar o copo de suco no chão de propósito — ela disse, a voz mais baixa agora. — O copo fica na mesa. Você bebe, coloca de volta. Combinado?
— Combinado.
— Vamos limpar junto?
— Junto.
Luísa pegou o pano na cozinha. Entregou para o Miguel. Ele passou o pano no chão, ainda soluçando. Não saía nada, mas ele tentava.
Quando o chão ficou seco, ela guardou o pano. Sentou no sofá. O Miguel subiu no colo dela.
— Mamãe.
— Fala.
— Não grita.
— Não vou. — Ela beijou a cabeça dele. — A mamãe vai tentar não gritar. Mas às vezes ela erra. Aí ela pede desculpa e tenta de novo.
— De novo?
— De novo.
O Miguel apoiou a cabeça no peito dela. O coração da Luísa ainda batia acelerado.
Carlos apareceu na porta da sala com uma xícara na mão.
— Ouvi o barulho — ele disse. — Tudo bem?
— Tudo. — Luísa passou a mão no cabelo do Miguel. — Eu gritei. Ele chorou. A gente conversou.
— Gritou?
— Gritei. — Ela suspirou. — Não queria. Mas saiu.
Carlos sentou na poltrona.
— Acontece.
— Eu sei. Mas não quero que vire padrão. Ele vai aprender que pra ser ouvido precisa gritar.
— Você já pediu desculpa?
— Já.
— Então está feito. — Carlos bebeu o café. — Ele vai lembrar do pedido de desculpa mais do que do grito.
— Você acha?
— Tenho certeza. Com o Pedro, eu gritava às vezes. Mas o que ele mais lembra é quando eu sentava e pedia desculpa depois.
Luísa olhou para o Miguel. Ele tinha fechado os olhos, o corpinho relaxado no colo dela.
— Dormiu? — Carlos perguntou.
— Dormiu.
— Vou pegar o café pra você.
Ele foi para a cozinha. Luísa ficou parada, o filho dormindo no colo, o sol entrando pela janela.
Da próxima vez, ela ia contar até dez antes de abrir a boca.
*Continua em: livreto-066.md — Carlos — Limites com carinho*