O bar tinha mesas de madeira e um cheiro de chopp batendo no balcão. Carlos chegou primeiro. Pediu duas cervejas. Ficou olhando a tela do celular enquanto esperava.
Beto entrou pela porta com um aceno. Sentou na frente do irmão.
— Demorou — Carlos disse.
— Trânsito. — Beto pegou o copo. Bebeu um gole. — Salve.
— Salve.
Os dois ficaram um minuto em silêncio. O barulho do bar enchia o espaço — copos, risadas, a televisão ligada no futebol.
— Tá quieto — Beto observou. — O que você quer?
— Por que eu tenho que querer alguma coisa?
— Porque você marcou encontro. Você não marca encontro. Eu tenho que ligar três vezes pra você aparecer.
Carlos riu.
— Tá, você tem razão.
— Fala.
Carlos girou o copo na mesa. A cerveja formava um anel de espuma no vidro.
— Beto, eu queria te perguntar uma coisa.
— Tô ouvindo.
— O Miguel vai fazer batizado. — Carlos parou. — E eu queria que você fosse padrinho.
Beto parou o copo no meio do caminho.
— Sério?
— Sério.
— Por que eu?
— Como assim por que você?
— Por que não o Carlos, ou o Pedro? Carlos é seu chefe, Pedro já é pai do Miguel de outra forma… — Beto inclinou a cabeça. — Por que eu?
Carlos não esperava essa pergunta. Ele pensou.
— Porque você é meu irmão. — A voz saiu simples. — Desde pequeno, você esteve lá. Quando eu precisei de dinheiro, você emprestou. Quando o Pedro nasceu, você ajudou. Quando eu mudei pra capital, você que veio me ajudar a carregar a mudança.
— Isso foi uma vez.
— Foi. E você não precisava ter ido. Mas foi.
Beto olhou para o copo. O dedo dele deslizou na borda.
— Padrinho é coisa séria — ele disse.
— Eu sei.
— Não é só aparecer no batizado e dar presente no Natal.
— Eu sei.
— É estar presente. É ser exemplo. É ser alguém que o Miguel pode procurar se precisar.
— Eu sei o que é padrinho, Beto.
Beto olhou para ele.
— E você acha que eu sirvo?
— Se eu não achasse, não teria chamado.
Beto pegou o copo. Ergueu na direção do irmão.
— Aceito.
Carlos sorriu. Pegou o copo dele. Os dois brindaram.
— Mas com uma condição — Beto disse.
— Qual?
— Você também vai ser padrinho dos meus, quando eu tiver.
— Combinado.
Os dois beberam. Carlos sentiu o peso nas costas diminuir.
— Por que você demorou tanto pra pedir? — Beto perguntou.
— Medo.
— Medo de quê?
— De você recusar. De soar estranho. De transformar uma coisa simples em drama.
— Você é mais novo. Drama é sua especialidade.
— Vai tomar no cu.
Beto riu. A risada dele era alta, gostosa.
— Tô brincando. — Ele bateu no ombro do irmão. — É uma honra, Carlinhos. Juro.
Carlos não respondeu. Ergueu o copo de novo. Brindaram outra vez.
O bar continuava cheio. Mas o barulho parecia mais leve agora.
*Continua em: livreto-065.md — Luísa — Educar sem gritar*