A Dona Lúcia chegou com uma sacola de feira na mão. Dentro tinha verduras, frutas, e um pote de comida caseira.
— Trouxe almoço pra vocês — ela anunciou, entrando na sala. — Essa comida congelada que vocês compram não sustenta.
Luísa fechou a porta. Respirou fundo.
— Obrigada, Dona Lúcia. Mas a gente tem cozinhado.
— Cozinhado o quê? Macarrão instantâneo?
— Não. Arroz, feijão, legumes. Aos poucos.
Dona Lúcia foi direto para a cozinha. Abriu a geladeira. Olhou dentro.
— Cadê a comida do Miguel?
— Na panela. Eu fiz purê de abóbora com frango desfiado.
— Purê? Ele já tem um ano e meio. Tem que comer comida sólida.
— Ele come. O purê é uma das refeições. Ele também come arroz, feijão, carne moída, fruta picada.
— E sal? Põe sal?
— Pouco. A pediatra disse que pode.
Dona Lúcia franziu a testa. Fechou a geladeira.
— Na minha época, a gente dava sal normal. E os meus filhos cresceram fortes.
— Eu sei, Dona Lúcia. Mas as orientações mudaram.
— Mudaram? — Ela balançou a cabeça. — Cada ano é uma moda. Não pode glúten, não pode lactose, não pode sal. E as crianças?
— As crianças estão bem. O Miguel está saudável.
O Miguel entrou na cozinha, segurando o carrinho. Olhou para a avó.
— Vovó!
— Meu neto. — Dona Lúcia se ajoelhou. — Vem cá.
O Miguel foi. Abraçou a avó. Ela encostou a mão na testa dele.
— Ele está com calor. Não está agasalhado.
— Está vinte e oito graus lá fora, Dona Lúcia.
— Mas venta. Pode pegar um resfriado.
Luísa apertou os lábios. Olhou para o Carlos, que estava parado na porta da sala, assistindo a cena.
— Mãe — Carlos interveio. — O Miguel está bem. A Luísa cuida muito bem dele.
— Eu sei que cuida. — Dona Lúcia levantou. — Mas mãe é mãe. A gente sempre acha que sabe mais.
— A senhora sabe mais sobre criar filho. Mas esse é o Miguel. — Carlos colocou a mão no ombro da Luísa. — E a gente está aprendendo junto.
Dona Lúcia olhou para os dois. Suspirou.
— Tá bom. Não vou falar mais.
— Pode falar — Luísa disse. — Mas com cuidado. Pergunta antes de criticar.
— Como assim?
— Em vez de dizer que a comida é pouca salgada, a senhora pode perguntar: "o que a pediatra recomendou sobre sal?" Aí a gente conversa, em vez de discutir.
Dona Lúcia pensou. Olhou para o pote de comida que tinha trazido.
— Então o que a pediatra recomendou sobre sal?
Luísa sorriu.
— Recomendou pouco. Uma pitada nas refeições, nada mais.
— E sobre agasalho?
— Falou que bebê não deve suar. Se estiver calor, roupa leve.
— Tá. — Dona Lúcia abriu a sacola. — Então o almoço que eu trouxe é só pra vocês, adultos. Pras crianças, eu pergunto antes.
— Combinado.
O Miguel soltou a avó e voltou para o carrinho. A cozinha cheirava a abóbora cozida. Luísa abriu a geladeira e guardou as verduras que a sogra tinha trazido.
*Continua em: livreto-064.md — Carlos — Convidar irmão pra ser padrinho*