Carlos estava no escritório em casa, o notebook aberto na mesa, as contas do mês espalhadas na frente dele. A luz do abajur iluminava a planilha. Ele passava os números com o dedo, somando mentalmente.
A porta do quarto do Miguel rangeu. Dona Lúcia saiu de lá com um body na mão.
— Esse aqui está rasgado no ombro — ela disse. — Precisa comprar novo.
— Tá, mãe. Depois a gente vê.
Dona Lúcia sentou na ponta da cama do escritório. Olhou para a planilha na tela.
— Isso é o orçamento do mês?
— É.
— Deixa eu ver.
Antes que Carlos pudesse responder, ela já estava inclinada na direção da tela. Os olhos dela percorriam os números.
— Carlos, você está gastando trezentos reais em delivery?
— É mais ou menos, mãe.
— Isso é muito. Dá pra cozinhar em casa por metade.
— Eu sei. Mas com o bebê, às vezes a gente não tem tempo.
Dona Lúcia franziu a testa. Passou o dedo na tela.
— E esse gasto com plano de saúde? Quase setecentos reais.
— É o plano do Miguel, mãe. A gente precisa.
— Mas o seu salário não cobre isso, Carlos. — Ela olhou para ele. — Você tá no vermelho?
— Não. Mas tá apertado.
— Você precisa cortar gastos.
— Eu sei.
— Vou te ajudar a reorganizar. Pega um papel.
— Mãe.
— O quê?
Carlos fechou o notebook. A tela apagou. A luz do abajur ficou sozinha no quarto.
— Eu agradeço a preocupação. Mas a senhora não precisa ver minhas contas.
— Eu só quero ajudar.
— Eu sei. Mas quando a senhora olha a minha planilha e diz onde cortar, parece que eu não sei administrar meu dinheiro.
— Não é isso.
— É um pouco isso. — Carlos passou a mão na nuca. — Eu tenho trinta anos, mãe. Sou casado, tenho um filho, um emprego estável. A senhora ainda acha que eu não sei cuidar do meu dinheiro?
Dona Lúcia ficou em silêncio. As mãos dela estavam no colo.
— É que eu me preocupo — ela disse.
— Eu sei. Mas a senhora precisa confiar que eu aprendi.
— Aprendeu?
— Aprendi. Foram anos de erro. Cartão estourado, conta atrasada, empréstimo que não devia ter feito. A senhora não sabe de tudo.
— Não sabia disso.
— Porque eu não contei. Mas eu aprendi. Hoje eu olho a planilha antes de gastar. Eu reservo emergência. Eu pago as contas antes do vencimento.
Dona Lúcia olhou para ele. O abajur iluminava só metade do rosto dela.
— Você cresceu — ela disse.
— Era hora, né?
Ela riu baixinho.
— É. Era hora.
— A senhora pode me ajudar sem olhar minha planilha?
— Como?
— Perguntando se a gente está bem. Não pedindo pra ver os números.
Dona Lúcia levantou. Ajeitou o vestido.
— Tá bom. — Ela parou na porta. — Vocês estão bem?
— Estamos. — Carlos sorriu. — Apertados, mas bem.
— Se precisar, eu posso ajudar com o Miguel um fim de semana. Pra vocês saírem. Gastarem menos com delivery e terem um tempo.
— Obrigado, mãe.
Ela saiu. A porta ficou aberta. Carlos abriu o notebook de novo. A planilha estava na tela.
Ele olhou os números. Apertado, mas dava. Ele sabia disso agora.
*Continua em: livreto-063.md — Luísa — Críticas da sogra sobre criação*