O almoço na casa da Dona Margô tinha terminado. Os pratos estavam empilhados na pia, o café acabado de passar, e o bolo de fubá cortado em fatias na mesa. O Miguel estava no chão da sala, brincando com um carrinho que a avó tinha comprado.
— Ele já fala frases completas? — Dona Margô perguntou.
— Frases não — Luísa respondeu. — Palavras soltas. Algumas juntas, tipo "quer água", "mais não".
— A vizinha aqui do prédio tem um neto da mesma idade. Já fala "vovó, me dá pão". Frase completa.
Luísa mordeu o canto do lábio. Tomou um gole de café.
— Cada criança tem seu ritmo, mãe.
— Eu sei. Mas você estimula ele em casa? Lê história, mostra as palavras?
— A gente lê todo dia. Mas ele prefere apontar as figuras do que repetir.
Dona Margô balançou a cabeça.
— A vizinha disse que o neto dela já conta até três.
— Ele aponta o nariz quando a gente pergunta onde está. — Luísa colocou a xícara na mesa. — Isso não conta?
— Claro que conta. — Dona Margô sorriu, mas o sorriso não escondeu o julgamento. — É que a gente fica preocupada, filha. Quer que ele se desenvolva bem.
— Ele se desenvolve bem, mãe. O pediatra disse.
— Pediatra não vê todo dia.
Luísa respirou fundo. Olhou para o Miguel no chão. Ele estava com o carrinho virado, tentando encaixar a rodinha no lugar. A língua para fora de concentração.
— Mãe, a senhora lembra quando eu era criança?
— Lembro.
— E a senhora me comparava com os outros?
Dona Margô hesitou.
— Talvez. Não lembro.
— A senhora já me disse que a filha da amiga da senhora aprendeu a ler aos cinco anos. Eu aprendi com seis. A senhora ficou preocupada.
— Fiquei. Mas você aprendeu.
— Aprendi. — Luísa apoiou os cotovelos na mesa. — E hoje eu leio, escrevo, trabalho com design. Não ficou nenhuma sequela.
Dona Margô baixou os olhos para a xícara.
— Acho que a gente nunca para de se preocupar com os filhos.
— Eu sei. — Luísa estendeu a mão por cima da mesa. — Mas comparar não ajuda. Só cria ansiedade. Em mim e no Miguel.
— Você acha que eu crio ansiedade?
— Não de propósito. Mas quando a senhora fala do neto da vizinha que já conta até três, eu fico pensando se o Miguel está atrasado. E ele não está. Ele está no tempo dele.
O silêncio durou alguns segundos. A Dona Margô bebeu o café.
— A vizinha é chata mesmo — ela disse finalmente.
Luísa riu.
— Mãe!
— É verdade. Ela não fala de outra coisa. Só do neto.
— E o Miguel é perfeito do jeito dele?
— Perfeito não. — Dona Margô sorriu. — Mas é o meu neto. E é lindo.
— A senhora acha que ele está atrasado?
— Não. Acho que ele está bem. — Ela ajeitou o cabelo. — E a vizinha que vá plantar batatas.
Luísa levantou. Foi até o chão, sentou perto do Miguel. Ele tinha conseguido encaixar a rodinha. Estava rodando o carrinho no tapete, feliz.
— Mamãe, olha.
— Lindo, filho.
Dona Margô ficou na mesa, olhando os dois. A xícara de café nas mãos.
— Luísa.
— Fala, mãe.
— Desculpa.
— Tá desculpada. Mas da próxima vez, me conta do bolo, não do neto da vizinha.
Dona Margô riu.
— Combinado.
*Continua em: livreto-062.md — Carlos — Pais que controlam finanças dos filhos adultos*