Como contar aos pais que não quer ter filhos? (adaptado: reflexão sobre ter tido um)

Carlos

Carlos estava no quarto do Miguel, dobrando as roupas que tinham secado no varal. Bodies pequenos, calças com elástico, meias que cabiam na palma da mão. Ele dobrava cada peça com cuidado, colocando no meio da cama.

O Pedro estava sentado na poltrona do quarto, o celular na mão. Tinha chegado mais cedo naquele sábado, e desde então estava mais quieto que o normal.

— Pai.

— Fala.

— Posso perguntar uma coisa?

Carlos parou de dobrar. Olhou para o filho.

— Pode.

Pedro desligou a tela do celular. Colocou o aparelho no colo.

— Você queria ter filho?

— Como assim?

— Quando eu nasci. Você queria ou foi acidente?

Carlos sentou na cama. A pilha de roupas do Miguel estava ao lado dele.

— Por que você está perguntando isso?

— Por nada. — Pedro deu de ombros. — É que eu tava pensando. Você era novo. A minha mãe também. Vocês não estavam juntos. Parece que eu fui um plano que deu errado.

— Não foi.

— Mas você queria?

Carlos olhou para a janela. A luz do fim de tarde entrava pelo vidro, desenhando um losango no chão.

— Quando eu descobri que você ia nascer — ele começou —, eu tive medo. Muito medo. Eu tinha dezenove anos, não tinha dinheiro, não tinha plano. Morei com a sua avó por mais dois anos depois que você nasceu.

Pedro ouvia. O rosto dele estava sério.

— Não foi o momento ideal — Carlos continuou. — Se eu pudesse escolher, teria esperado. Mas eu não escolhi. E isso não significa que você foi um erro.

— O que significa?

— Que a vida aconteceu. E que eu me adaptei.

Carlos pegou um body do Miguel na pilha. Dobrou devagar.

— E hoje, você se arrepende? — Pedro perguntou.

— Arrepender de ter você? — Carlos balançou a cabeça. — Não.

— E o Miguel? Você queria ele?

— O Miguel foi planejado. Com a Luísa, a gente conversou, escolheu. Foi diferente.

— E é melhor?

Carlos parou. Olhou para o body nas mãos. Depois para o Pedro.

— Não. É diferente. — Ele apoiou o body na cama. — Quando você nasceu, eu não sabia o que estava fazendo. Aprendi no susto. Com o Miguel, eu já sabia alguma coisa. Mas cada filho é um mundo novo.

Pedro ficou em silêncio. Apoiou o queixo na mão.

— Então você não acha que ter filho cedo foi um erro.

— Foi difícil. Muito difícil. Mas erro, não. — Carlos levantou, foi até a poltrona, sentou na frente do filho. — Pedro, se eu pudesse voltar no tempo e não ter você, eu não voltaria. Porque você existe. Você é meu filho. Não tem versão melhor da minha vida sem você.

Pedro olhou para ele. Os olhos dele estavam brilhando, mas ele piscou rápido.

— Tá — ele disse. A voz saiu baixa.

— Isso responde? — Carlos perguntou.

— Responde.

Carlos apoiou a mão no ombro do Pedro.

— Se um dia você pensar em ter filho, vai ser sua escolha. Pode ser cedo, pode ser tarde, pode ser nunca. Mas não vai ser porque você está repetindo o que eu fiz. É sua vida.

Pedro respirou fundo.

— Obrigado.

— De nada.

O Miguel apareceu na porta do quarto, a chupeta na boca, um ursinho na mão.

— Pai — ele disse. — Pedro.

— Fala, guri — Pedro respondeu.

O Miguel entrou, subiu na cama, sentou no meio das roupas dobradas.

— Bagunça — ele disse, rindo.

Carlos olhou para os dois. O mais velho na poltrona, o mais novo na cama. Um tinha quinze, o outro tinha um.

— Bagunça mesmo — ele disse.

*Continua em: livreto-061.md — Luísa — Pais que comparam filhos*