Era sábado de manhã. A cozinha cheirava a café fresco e pão na chapa. O Miguel estava no tapete da sala, rodeado de blocos de madeira, construindo uma torre que já estava maior que ele.
A campainha tocou.
Luísa abriu. Pedro entrou com a mochila pendurada num ombro, os fones no pescoço.
— Fala, Lu.
— Fala, gato. Bateu fome?
— Sempre.
Ele foi direto para a cozinha. Abriu a geladeira. Pegou o leite.
— Tem pão?
— Na chapa.
Luísa voltou para a sala. Sentou no tapete perto do Miguel. Ele estava concentrado, a língua para fora, colocando o último bloco no topo da torre.
— Olha, mamãe.
— Lindo, filho.
Pedro chegou com o prato na mão. Sentou no sofá. Mordeu o pão.
— E aí, guri — ele disse para o Miguel. — O que você está fazendo?
— Torre.
— Deixa eu ver.
O Miguel deu um passo para trás, orgulhoso. A torre tinha seis blocos, meio torta, mas de pé.
— Maneiro — Pedro disse.
O Miguel sorriu. Olhou para o irmão.
— Pedro, brinca?
— Agora não, tô comendo. Depois.
— Depois? — O Miguel franziu a testa.
— Isso, depois.
O Miguel abaixou a cabeça. Empurrou a torre com a mão. Os blocos caíram no tapete com um baque seco.
— Miguel! — a voz saiu mais alta do que Luísa queria.
O Miguel olhou para ela. O queixo começou a tremer.
— Ele queria a atenção do Pedro — Carlos disse, entrando na sala com uma caneca na mão. — A torre era uma desculpa.
— Eu sei. — Luísa passou a mão no cabelo. — Mas ele não precisava derrubar.
— Ele tem um ano e meio. Ele não sabe pedir atenção.
Luísa olhou para o Miguel, que agora estava com o bico virado. Depois para o Pedro, que comia o pão olhando o celular.
Uma ideia passou pela cabeça dela. Uma ideia desconfortável.
— Pedro — ela chamou.
— Fala.
— Você acha que a gente trata o Miguel diferente de como trata você?
Pedro levantou a cabeça do celular.
— Como assim?
— A atenção. O carinho. O tempo. — Ela parou. — A gente dá mais atenção pra ele porque é pequeno?
Pedro pensou. Mordeu o pão de novo. Mastigou devagar.
— Não sei. Talvez.
— E isso te incomoda?
Ele deu de ombros.
— Um pouco. Mas ele é bebê. Precisa de mais coisa.
— Mas você também precisa.
Pedro olhou para ela. O sol da manhã batia no rosto dele.
— Às vezes — ele disse. — Mas eu não vou competir com bebê. Isso é ridículo.
— Não é competição. — Luísa sentou na ponta do sofá. — É sobre a gente garantir que você sabe que não tem filho favorito aqui.
Pedro ficou em silêncio. Olhou para o prato.
— Pode deixar — ele disse. — Eu sei.
Luísa não tinha tanta certeza. Olhou para o Miguel no tapete. Ele tinha começado a empilhar os blocos de novo, sozinho, a língua para fora.
— Miguel, vem cá — ela chamou.
O Miguel largou os blocos. Veio andando. Subiu no colo dela.
— Você ama o Pedro? — ela perguntou.
— Sim.
— E a mamãe ama os dois. Do mesmo jeito.
O Miguel não entendeu. Mas abraçou o pescoço dela.
Luísa olhou para o Pedro. Pedro baixou os olhos. Mas no canto da boca dele, tinha um sorriso pequeno.
*Continua em: livreto-060.md — Carlos — Contar aos pais que não quer ter filhos*