Carlos estava no meio da cozinha com uma colher de pau na mão. O arroz estava quase pronto, o feijão já tinha sido temperado, e a batata estava cortando na tábua. A mesa posta, os talheres no lugar.
O Miguel estava na sala, no cercadinho, brincando com os blocos.
— Tudo sob controle? — a voz da Dona Lúcia veio da sala.
— Quase. Só falta fritar a batata.
Dona Lúcia apareceu na porta da cozinha. Olhou para a bancada cheia, para o avental do Carlos, para o suor na testa dele.
— Você quer que eu ajude?
— Não, pode sentar, mãe. A senhora é visita.
— Visita ou não, eu posso cortar uma batata.
— Não precisa.
Dona Lúcia sentou na ponta do sofá. Olhou para o neto no cercadinho. O Miguel empilhava blocos com a concentração de um engenheiro.
Carlos fritou a batata. O óleo chiou. O cheiro encheu a cozinha.
Ele olhou para o relógio. Faltavam vinte minutos para a Luísa chegar. O arroz estava no ponto. O feijão também. A batata ia ficar pronta em cinco minutos.
Só que o Miguel estava no cercadinho há quarenta minutos. E ele sabia que daqui a pouco ia começar a reclamar.
Carlos olhou para a mãe. Ela estava com a bolsa no colo, o celular na mão.
Ele hesitou.
— Mãe.
— Fala, filho.
— A senhora podia… — ele parou. — Não, deixa.
— O quê?
— Nada.
— Carlos, fala.
Ele secou a mão no avental. Saiu da cozinha.
— A senhora podia tirar ele do cercadinho? Ficar com ele enquanto eu termino de cozinhar?
Dona Lúcia guardou o celular na bolsa. Levantou.
— Claro.
Ela foi até o cercadinho. Abriu a trava. O Miguel estendeu os braços.
— Vovó.
— Vem cá, meu amor.
Ela pegou o neto no colo. O Miguel apoiou a cabeça no ombro dela.
— Só isso que você queria pedir? — Dona Lúcia perguntou.
— É. — Carlos voltou para a cozinha. — É que… eu não queria incomodar. A senhora é visita.
— Visita é família, Carlos. A gente não veio aqui para ser servido. A gente veio para estar junto.
— Eu sei. Mas é difícil pedir.
— Por quê?
Carlos mexeu a batata na frigideira. O cheiro de óleo quente subia.
— Porque parece que eu não estou dando conta.
— Dando conta de quê? — Dona Lúcia sentou no sofá com o Miguel no colo. — Você está fazendo comida, arrumando a casa, cuidando do bebê. Ninguém dá conta disso sozinho.
— O senhor Antônio dava?
Dona Lúcia riu. Uma risada curta.
— Seu pai não sabia nem onde guardava a panela de arroz. Cada um na sua função.
— Mas a senhora dava conta.
— Eu dava porque eu pedia. — Ela ajeitou o Miguel no colo. — Pedia pra sua avó, pedia pra vizinha, pedia pra ele quando precisava. Pedir não é fraqueza.
Carlos desligou o fogo. A batata estava pronta. Ele ficou parado na frente do fogão.
— Obrigado, mãe.
— De nada. — Dona Lúcia beijou a cabeça do Miguel. — E da próxima vez, pede antes. Não deixa o menino preso no cercadinho até você não aguentar mais.
Carlos riu.
— Pode deixar.
*Continua em: livreto-059.md — Luísa — Preferência dos pais por um filho*