Visita com crianças — como lidar?

Luísa

O domingo começou com o barulho de passos no corredor do prédio. Muitos passos. Luísa estava na cozinha cortando frutas quando ouviu a campainha.

— Chegou — ela disse para o Miguel, que estava no chão da sala com um livro de pano.

Ela abriu a porta. A Janaína estava lá com o Rafael no colo, uma bolsa gigante no ombro, e uma mochila nas costas.

— Socorro — Janaína disse.

— Entra.

Luísa segurou a porta enquanto Janaína entrava. O Rafael estava com o rostinho vermelho, os olhos inchados.

— Ele dormiu no carro — Janaína explicou. — Acordou na hora de subir e não quis saber de outra coisa.

— Normal. — Luísa fechou a porta. — Pode largar as coisas no sofá.

Janaína deixou a bolsa cair no tapete. Suspirou fundo.

O Miguel largou o livro e veio andando em direção ao Rafael. Parou na frente do outro menino. Olhou.

— Bebê? — ele perguntou.

— É o Rafael. — Luísa ajoelhou perto dele. — Lembra que a mamãe falou? O filho da Janaína.

O Miguel estendeu a mão e tocou o pé do Rafael. O Rafael olhou para ele com desconfiança.

— Ele tem um ano e meio também? — Janaína perguntou.

— Isso. Completou agora.

— Então estão na mesma fase. — Janaína colocou o Rafael no chão. — Preparada para a bagunça?

— Acho que sim.

Os dois meninos ficaram se olhando por um minuto. Depois o Miguel pegou um carrinho no chão e ofereceu para o Rafael. O Rafael pegou. Não disse nada. Mas não chorou.

— Milagre — Janaína murmurou.

Luísa riu. Foi para a cozinha preparar café. A Janaína sentou no sofá, os olhos nos dois meninos.

— Eu fico tensa quando recebo visita com criança — Luísa confessou, a água passando no filtro. — Medo dos dois brigarem, de alguém se machucar, de não ter lanche suficiente.

— É que você é nova nisso. — Janaína inclinou a cabeça para ver a cozinha. — Com o tempo você aprende que criança se entende sozinha. A gente só precisa não atrapalhar.

— Como assim?

— Olha eles.

Luísa olhou. Os dois estavam sentados no tapete, o Rafael com o carrinho, o Miguel com um bloco. Nenhum dos dois estava brigando. Cada um fazia a sua coisa, no mesmo espaço, sem conflito.

— Criança pequena não sabe competir — Janaína continuou. — Ela só quer estar perto de outra criança. O problema é quando o adulto interfere.

— Mas e se eles brigarem?

— Aí a gente separa e pronto. Mas a gente não precisa antecipar o problema.

Luísa serviu o café. Levou as xícaras para a sala. Sentou na poltrona.

O Miguel levantou, foi até a estante, pegou outro carrinho. Voltou. Entregou para o Rafael.

— Toma.

O Rafael pegou. Olhou para o Miguel. Sorriu.

— Pronto — Janaína disse. — Amizade selada.

— Sem briga, sem choro, sem nada.

— Sem nada. — Janaína soprou o café. — Às vezes a gente complica o que é simples.

Luísa bebeu um gole de café. Olhou os dois meninos no tapete, cada um com um carrinho, o sol da manhã entrando pela cortina bege. O Rafael apontou para o Toby, que dormia no canto.

— Au-au — ele disse.

— É o Toby — o Miguel respondeu. — Ele não morde.

Os dois voltaram a brincar. O café estava quente na xícara da Luísa. Ela relaxou no sofá.

Talvez fosse simples assim.

*Continua em: livreto-058.md — Carlos — Pedir pra visita cuidar da criança*