O interfone tocou enquanto Carlos fechava a gaveta do Miguel — os talheres estavam guardados no lugar certo, os medicamentos também. Ele correu para atender.
— Subindo — a voz do Beto saiu chiada pelo alto-falante.
Carlos apertou o botão. Olhou em volta. A sala estava razoavelmente arrumada, mas tinha um brinquedo do Miguel embaixo da mesa de centro. Ele pegou e jogou na cesta.
Beto chegou com a Clarinha. Os dois entraram rindo de alguma coisa que tinha acontecido no elevador.
— Cerveja? — Carlos perguntou assim que eles passaram pela porta.
— Claro — Beto disse.
— Pra mim também — Clarinha completou.
Carlos foi para a cozinha. Abriu a geladeira. Tinha duas cervejas, um resto de suco, leite, e os potes de comida do Miguel.
Ele parou com a mão no ar.
— Beto, você vai mesmo beber?
— Ué, você perguntou.
— É que — Carlos hesitou — o Miguel está acordado. E a Clarinha também vai beber?
— Carlos, para de loucura. Uma cerveja não vai me fazer mal na frente do meu sobrinho.
Carlos pegou as duas latinhas. Ficou parado na frente da geladeira aberta, o ar frio escapando.
— Pai? — a voz do Miguel veio da sala. — Pai, água.
Carlos fechou a geladeira. Pegou o copo do Miguel no armário, encheu de água. Levou os três itens para a sala — duas cervejas e um copo d'água.
— Toma, filho.
O Miguel pegou o copo com as duas mãos. Bebeu. Olhou para as latinhas na mão do pai.
— Cerveja? — ele perguntou.
— Isso é cerveja, sim. É coisa de adulto.
— Posso?
— Não. — Carlos sentou no braço do sofá. — Cerveja é só quando crescer.
— Quando crescer?
— É.
O Miguel pensou. Bebeu mais um gole de água. Depois voltou a brincar com o Toby no tapete.
Beto abriu a latinha dele. O som do alumínio estalou na sala.
— Você tá tenso, irmão.
— Não tô tenso.
— Tá sim. — Beto bebeu um gole. — Desde que a gente chegou, você não parou de se mexer. Senta.
Carlos sentou. Olhou para o Beto. A latinha na mão do irmão tinha um zumbido gelado.
— É que antes, quando a visita chegava, eu só perguntava o que queria beber e pronto. Agora eu penso em um monte de coisa. Se o copo vai ficar no alcance, se o Miguel vai querer experimentar, se a visita vai beber demais perto dele.
— E? — Beto inclinou a cabeça.
— E eu nunca tinha pensado nisso antes. O Pedro cresceu, mas eu era mais novo, não prestava atenção nesses detalhes.
Clarinha sentou na poltrona. Pegou a cerveja dela.
— Você está fazendo certo, Carlos. — Ela apontou para a latinha. — A gente pode beber sem problema, desde que com cuidado. Não é sobre não beber. É sobre como beber.
O Miguel veio correndo, parou na frente do Beto. Olhou para a latinha.
— Tio?
— Fala, guri.
— Isso é gostoso?
Beto riu. Olhou para o Carlos. Depois para o Miguel.
— É gostoso, mas você não vai gostar. É amargo.
O Miguel fez cara de nojo. Saiu correndo de volta para o tapete.
Carlos respirou fundo.
— Acho que sou eu que complico, né?
— Não. — Beto bateu no ombro dele. — Você só está prestando atenção. Isso se chama ser pai.
*Continua em: livreto-057.md — Luísa — Visita com crianças*