Como lidar com visitas que bebem?

Luísa

Sábado à tarde, a sala estava arrumada. Luísa tinha passado pano no chão, guardado os brinquedos do Miguel na cesta, acendido uma vela no aparador. O Toby estava deitado no canto, o focinho entre as patas.

A campainha tocou.

Era a Camila, com uma garrafa de vinho na mão.

— Sobrevivente da semana — Camila anunciou, erguendo a garrafa. — Trouxe o combustível.

Luísa riu. Abraçou a amiga.

— Entra. O Miguel acabou de almoçar.

Camila deixou a bolsa no sofá e foi direto para a cozinha. Pegou dois copos no armário. Abriu a gaveta dos talheres.

— Cadê o saca-rolhas?

— No mesmo lugar de sempre.

Luísa respondeu, mas ficou parada na entrada da cozinha, olhando a garrafa na bancada. O Miguel estava no tapete da sala, empilhando blocos de madeira. Ele tinha um ano e meio, e nos últimos meses tinha desenvolvido uma habilidade nova: imitar tudo que os adultos faziam.

— Vai beber comigo? — Camila perguntou, já com o saca-rolhas na mão.

Luísa hesitou.

— Na verdade… acho que não vou beber hoje.

— Por quê?

— Por causa do Miguel. — Ela apontou com o queixo para a sala. — Se eu beber, ele vai querer imitar. E se eu der um gole pra ele experimentar? Ou se ele pegar o copo sem eu ver?

Camila olhou para a garrafa, depois para a amiga.

— Ele não vai pegar se você deixar longe.

— Longe não é garantia. Criança de um ano e meio escala móvel. — Luísa cruzou os braços. — E não é só o risco físico. É a mensagem. Se ele me vê bebendo sempre que chega visita, o que ele aprende?

Camila colocou o saca-rolhas na bancada.

— Você tem razão. Nem pensei nisso.

— Eu também não pensava. Antes do Miguel, vinho no sábado era automático. Agora eu preciso pensar em cada detalhe.

— E o que você quer fazer? — Camila perguntou. — Quer que eu guarde a garrafa?

Luísa olhou para o vinho. Era um tinto que ela adorava — a Camila conhecia o gosto dela.

— Pode abrir — ela disse. — Eu tomo um copo depois que ele dormir. Agora, vou fazer um suco pra mim.

— Aceito um também.

Camila guardou o vinho na geladeira. As duas fizeram suco de laranja na cozinha, o liquidificador enchendo a sala de barulho.

Sentaram no sofá, cada uma com um copo na mão. O Miguel veio engatinhando, subiu no colo da Luísa. Pegou o copo dela com as duas mãos, levou à boca, bebeu um gole.

— É suco — Luísa disse. — Pode beber.

O Miguel bebeu mais um gole. Deixou o copo no colo dela. Olhou para a Camila.

— Tia? — ele disse.

— O quê, meu amor?

— Suco.

Camila riu. Ergueu o copo dela.

— É, meu bem, suco. A gente tá tomando suco juntos.

O Miguel sorriu. Desceu do colo da Luísa e voltou para os blocos.

Camila olhou para Luísa.

— Tá vendo? Funcionou.

Luísa bebeu um gole do suco. Olhou para o filho no tapete, concentrado na torre de blocos. A vela no aparador soltava um cheiro leve de baunilha.

— É melhor que vinho — ela disse.

— Mentira. — Camila riu. — Mas é bom também.

*Continua em: livreto-056.md — Carlos — O que a visita quer beber?*