Carlos estava no chão da sala, as pernas cruzadas, o Miguel no colo. Uma xícara de café na mesa, longe do alcance. O bebê tinha um mordedor de silicone numa mão e uma chave de plástico na outra.
Ele levou a chave à boca. Mordeu. Babou. Tirou. Olhou. Levou de novo.
— Isso é normal, doutora? — Carlos perguntou, o celular no viva-voz.
Dra. Fernanda riu do outro lado da linha.
— Totalmente normal. A boca é o principal órgão de exploração do bebê até um ano.
— Mas ele coloca TUDO. O brinquedo, o pé, o controle remoto — se a gente descuidar, ele coloca o dedo do Toby na boca.
— E o que acontece quando ele coloca?
— Nada. Ele morde, babá, larga, pega outro.
— Exato. Não é um problema. É um estágio do desenvolvimento.
Carlos olhou para o Miguel. Ele tinha largado a chave e estava agora chupando o próprio pé com concentração.
— Não tem perigo de engasgar? — Carlos perguntou.
— Tem. Por isso a supervisão é necessária. Objetos muito pequenos, peças que soltam, pontiagudos — tudo isso deve ficar longe. Mas o ato de levar à boca em si não é perigoso.
— E morder? Ele morde quando está irritado.
— Mordida em bebê não é agressão. É comunicação. Ele não tem palavra pra dizer \"estou frustrado\", \"estou com dor\", \"estou cansado\". A mordida é a saída que ele encontrou.
— O que a gente faz?
— Primeiro: não grita. Segundo: não morde de volta. Terceiro: tira a situação, fala com calma — \"não, isso dói\" — e oferece uma alternativa. Um mordedor, um brinquedo.
Carlos anotou mentalmente. *Não gritar. Não morder de volta. Oferecer alternativa.*
— E a dentição?
— Pode estar contribuindo. Se a gengiva estiver inchada, o desconforto aumenta a necessidade de morder. Oferece mordedor gelado, brinquedo de silicone. Se ele estiver muito irritado, consulta o pediatra pra avaliar se precisa de algo para alívio.
— E os objetos perigosos? Como a gente evita?
— Olho no bebê e ambiente preparado. O que estiver no chão, vai pra boca. Tapete limpo, brinquedos lavados, objetos pequenos guardados. É mais simples do que parece.
Carlos olhou em volta. A sala estava relativamente organizada, mas tinha um controle remoto na mesa de centro. Ele pegou e colocou numa gaveta.
— Obrigado, doutora.
— Imagina. E lembra: essa fase passa. Daqui a alguns meses ele vai estar explorando o mundo de outra forma. Aproveita enquanto a preocupação maior é um pé na boca.
Carlos desligou o telefone. Olhou para o Miguel, que agora estava com os dois pés na boca, equilibrado nas costas, parecendo um palhaço.
Ele riu. Era isso. Fase passageira.
*Fim da cena: bebê crescendo — creche, adaptação e cuidados*