O que fazer se algo acontecer com os pais? (Plano B)

Luísa

A noite estava quieta. O Miguel tinha dormido às vinte horas. Luísa estava na sala, um vinho branco pela metade na mesa, o notebook aberto. Carlos chegou do banho com uma toalha no ombro.

— O que você está fazendo?

— Pesquisando.

— Pesquisando o quê?

Luísa hesitou. Era um assunto pesado. Mas precisava ser conversado.

— Se acontecer alguma coisa com a gente — ela disse —, com quem o Miguel fica?

Carlos parou. A toalha parou no ombro.

— Que tipo de coisa?

— Qualquer coisa. Acidente. Doença. O improvável.

Ele sentou ao lado dela. O sofá rangeu.

— A gente tem os avós — ele disse.

— A Dona Lúcia tem sessenta e dois anos. A Dona Margô também. Elas dariam conta de criar uma criança do zero? — Luísa virou o notebook para ele. — Eu li sobre guarda legal, testamento, plano de parentalidade.

Carlos leu a tela. O site era de um escritório de advocacia especializado em direito de família.

— Você quer fazer um testamento?

— Não um testamento. Um plano. Quem cuida do Miguel se a gente não puder.

Carlos ficou em silêncio. A palavra *plano* soava melhor que *testamento*.

— E quem você pensou?

— Pensei na Camila.

— A Camila?

— Ela é madrinha do Miguel. Conhece ele desde que nasceu. Tem trinta anos, é estável, independente. E ama ele.

Carlos pensou. A Camila era a sócia da Luísa. Extrovertida, estabilidade financeira, sem filhos. Ela visitava o Miguel toda semana.

— Mas a Camila não tem filhos — ele disse.

— Isso não é desqualificação. Ter filho não é pré-requisito pra cuidar bem de um. — Luísa virou o corpo para ele. — A mãe da Camila mora perto, ajudaria. Ela tem rede de apoio.

— E os avós?

— Eles seriam envolvidos. Mas morar com a avó aos sessenta e poucos anos é diferente de ser criado por ela dos zero aos dezoito. A gente precisa de alguém que tenha energia, saúde, e tempo.

Carlos ficou olhando para o notebook. A luz da tela refletia no rosto dele.

— Você já pensou em tudo — ele disse.

— Não tudo. Mas o começo. O que você acha?

Ele respirou fundo.

— Eu acho que é o tipo de conversa que ninguém quer ter, mas todo mundo deveria ter.

Luísa encostou a cabeça no ombro dele.

— Então amanhã a gente conversa com a Camila.

— Amanhã.

O silêncio voltou. Mas agora era mais leve.

*Continua em: livreto-054.md — Carlos — Bebê que morde tudo*