Como conhecer outras famílias na creche?

Luísa

A sala de espera da creche tinha um sofá azul e duas poltronas. Luísa sentou na ponta do sofá, o Miguel no colo, a mamadeira de água na bolsa. Era o segundo dia de adaptação. Ela estava mais nervosa que o bebê.

Do lado, outra mãe amamentava. Uma mulher mais nova, cabelo cacheado preso num coque, olheiras profundas. Os olhos dela estavam fixos no filho.

— Qual a idade? — Luísa perguntou.

A mulher ergueu o olhar. Demorou um segundo para processar a pergunta.

— Oito meses. E o seu?

— Oito também. — Luísa sorriu. — O Miguel.

— O meu é o Rafael. — A mulher ajustou o bebê no braço. — É seu primeiro?

— É. — Luísa riu baixo. — Dá pra perceber?

— Pela cara de desespero tranquilo? Sim.

As duas riram. O riso quebrou o gelo.

— Sou a Luísa.

— Janaína.

O Miguel estava calmo no colo, olhando o teto. O Rafael terminou de mamar e começou a olhar em volta.

— Você também está no período de adaptação? — Luísa perguntou.

— Segunda semana. O Rafa chorou os três primeiros dias. Hoje ele já deixou eu sair por meia hora sem crise.

— Meu Deus. Três dias?

— Três. Mas passou. — Janaína ajeitou a blusa. — No quarto dia ele já estranhou quando eu saí, mas não chorou. A Tânia disse que é progresso.

— E você? Como você ficou?

— Eu? — Janaína pensou. — Eu chorei mais que ele. No primeiro dia fui embora e fiquei no carro olhando a foto dele no celular.

Luísa sentiu um alívio imediato. Não era só ela.

— Eu to com medo de não conseguir deixar ele — Luísa confessou.

— Você vai. A gente consegue. — Janaína apontou com o queixo para a sala do berçário. — Olha, eles estão bem.

Luísa olhou. Pela janela de vidro, dava para ver os bebês no tapete. O Miguel estava sentado, olhando uma cuidadora que balançava um chocalho. Ele não estava chorando.

— Tem grupo de pais? — Luísa perguntou.

— Tem um grupo no WhatsApp. A Tânia cria um pra cada turma. As mães mandam foto, marcam encontro no parquinho no fim de semana, trocam dica.

— Me adiciona?

— Claro.

Janaína pegou o celular. Enquanto digitaria o número, olhou para Luísa.

— Bem-vinda ao clube das mães que passam o dia olhando o celular esperando foto do filho.

Luísa riu. Era exatamente o que ela seria.

*Continua em: livreto-050.md — Carlos — Vacinas*