Como funciona o período de adaptação na creche?

Carlos

Carlos estava sentado na sala da coordenação, as mãos entrelaçadas sobre a mesa. Luísa estava ao lado, o celular na mão — ela estava gravando o que Tânia dizia.

— A adaptação é gradual — Tânia explicou. — A gente não coloca a criança e sai. Isso machuca.

— Quanto tempo dura? — Carlos perguntou.

— Depende do bebê. Tem criança que em três dias já fica tranquila. Tem criança que leva duas semanas. A média é de cinco a sete dias.

— E como funciona?

— Primeiro dia: a mãe ou o pai fica com o bebê na sala por uma hora. A gente vai se aproximando, brincando, criando vínculo com a criança e com os pais juntos.

— A gente fica na sala? — Luísa perguntou.

— Fica. No primeiro dia, os pais não saem.

— Segundo dia — Tânia continuou — os pais ficam na sala, mas se afastam um pouco. Sentam num canto, deixam o bebê interagir com a gente. Se o bebê olhar e quiser colo, a gente espera os pais virem.

— Terceiro dia: os pais saem da sala por quinze minutos. Ficam na área de espera. Se o bebê chorar, a gente acolhe, tenta confortar. Se não passar, a gente chama.

Carlos engoliu seco.

— E se ele não parar de chorar?

— Aí a gente chama. Não tem problema. — Tânia falou com calma. — O objetivo não é forçar. É construir confiança. Se o bebê chora e ninguém vem, ele aprende que chorar não adianta. A gente não quer isso. A gente quer que ele aprenda que a mãe e o pai voltam.

Carlos olhou para Luísa. Ela estava com os olhos fixos em Tânia.

— Quarto dia: os pais saem por trinta minutos. Quinto dia: uma hora. Sexto: duas horas. Sétimo: período completo.

— E se a criança regredir? — Carlos perguntou. — Se passar uma semana bem, e na segunda começar a chorar de novo?

— Acontece. Volta um passo. Quinze minutos, depois meia hora, e reconstroi.

Luísa guardou o celular.

— E os pais? Como a gente lida com a culpa?

Tânia sorriu. Um sorriso que parecia sincero.

— A culpa é normal. A senhora vai sentir. Mas uma adaptação bem feita diminui a culpa. Porque a senhora vê que o bebê está bem.

Carlos endireitou as costas na cadeira. O coração estava apertado, mas a cabeça estava mais clara.

— Acho que a gente consegue — ele disse.

— A gente consegue — Luísa repetiu.

*Continua em: livreto-049.md — Luísa — Conhecer outras famílias*