Como é a personalidade do bebê e como ela se desenvolve?

Carlos

Eram nove da noite quando o bebê finalmente dormiu. Carlos colocou ela no berço com cuidado de quem desarma uma bomba. Cada rangido do assoalho era um risco.

Ele fechou a porta do quarto devagar. Foi para a sala. Sentou no sofá.

Luísa já estava lá, com o Toby deitado ao lado dela, um livro aberto no colo.

— Dormiu? — ela perguntou.

— Dormiu. — Carlos inclinou a cabeça para trás, os olhos no teto. — Mas antes disso, ela ficou uma hora berrando.

— Ela está na fase de estranhar.

— Eu sei. Mas parece que ela estranha mais comigo.

Luísa fechou o livro. Olhou para ele.

— O que você quer dizer?

— Quando você pega, ela acalma mais rápido. Quando eu pego, ela chora mais. — Ele passou a mão no cabelo. — É frustrante.

— Ela está acostumada com o meu cheiro, com a amamentação. — Luísa apoiou os pés na mesa de centro. — Não é pessoal.

— Eu sei. Mas parece.

O Toby levantou a cabeça, olhou para Carlos, e apoiou o focinho no joelho dele.

— Ela já tem personalidade — Carlos disse. — Está com o quê, três meses? E já mostra o que gosta e o que não gosta. Não gosta de deitar de bruços. Gosta de ficar no colo virada para fora. Não gosta de barulho alto.

— Que nem você.

— Que nem eu. — Ele riu baixinho. — Será que isso é genético?

— Pode ser. Ou pode ser que ela está aprendendo a ser ela mesma.

Carlos ficou em silêncio. O barulho da geladeira ligava e desligava na cozinha.

— Luísa, eu fico pensando — ele começou. — Será que eu vou saber lidar com a personalidade dela? Quando ela crescer, tiver opinião, discutir, desafiar…

— Você lida com o Pedro.

— Pedro é diferente. Pedro já veio com uma personalidade quase formada. Esse bebê — ele apontou com o queixo na direção do quarto — é uma folha em branco. E eu tenho medo de escrever errado.

— Carlos. — Luísa sentou mais reta. — Você não vai escrever errado. Você vai escrever junto com ela. A personalidade não é algo que a gente determina. É algo que a gente descobre.

— E se ela for difícil?

— Difícil como?

— Teimosa. Geniosa. Irritada.

— Parece alguém que eu conheço. — Luísa sorriu. — Você está descrevendo você mesmo.

Carlos franziu a testa.

— Eu não sou teimoso.

— Claro que não.

Ele riu.

— Tá, talvez um pouco.

Ela apoiou a mão no braço dele.

— Carlinhos, a personalidade da sua filha não é um problema para ser resolvido. É uma pessoa para ser conhecida. Pode ser difícil? Pode. Mas aí você aprende a lidar. A adaptar. A crescer junto.

Ele olhou para a mão dela no braço dele. Depois para o rosto dela.

— Você sempre sabe o que dizer.

— Nem sempre. — Ela deu de ombros. — Mas com você, sim.

Carlos respirou fundo. O Toby apoiou a cabeça no colo dele de novo.

Do quarto, um barulho baixinho. O bebê tinha virado na cama, uma cambalhota leve.

Carlos sorriu no escuro.

— Ela é danada, essa menina.

— Puxou o pai.

— Ou a mãe.

Os dois riram baixinho, para não acordar a filha.

*Continua em: insumo-042.md — Creche*