A mesa da cozinha estava coberta de potes. Bananas, batata-doce, abóbora, brócolis, maçã. Um liquidificador no canto, uma panela pequena no fogão, uma colher de silicone na bancada.
Luísa olhou para tudo com uma expressão de quem estava prestes a comandar uma operação militar.
O bebê estava na cadeirinha, os olhos acompanhando o movimento da mãe. Seis meses e três dias de vida. A pediatra tinha dado o sinal verde na consulta da semana passada.
— Tá na hora — Luísa murmurou.
Ela começou pela batata-doce. Cozinhou até ficar macia, amassou com o garfo, deixou esfriar. Colocou uma colher pequena no potinho.
Sentou na cadeira em frente à cadeirinha.
— Olha só, pequena. Comida de verdade.
O bebê olhou para a colher. Depois para a mãe. Depois para a colher de novo.
Luísa aproximou a colher da boca da filha. O bebê abriu a boca no automático — o mesmo reflexo da amamentação. A colher entrou.
O rostinho mudou na hora.
Os olhos arregalaram. A boca fechou e abriu. A língua empurrou a comida para fora.
A batata-doce escorreu pelo queixo, caiu no babador, fez uma mancha alaranjada no plástico.
Luísa riu.
— Não gostou?
O bebê franziu a testa. A língua ainda mexia, tentando entender a textura nova.
— Tenta de novo.
Luísa limpou o queixo da filha com o guardanapo. Colocou mais uma colherada na boca.
Dessa vez, o bebê fechou a boca. Mastigou com a gengiva. A expressão era de desconfiança, mas ela não cuspiu.
— Isso! — Luísa comemorou. — Mandou bem!
Na segunda tentativa, a filha engoliu. Na terceira, já abria a boca antes da colher chegar.
Luísa sentiu uma pontada de orgulho no peito. Não era o primeiro sorriso, nem o primeiro passo. Mas era a primeira comida.
Depois da batata-doce, ela tentou a abóbora. O bebê aceitou com mais facilidade — talvez pelo gosto mais doce. O brócolis foi recusado com uma careta que fez Luísa gargalhar.
— Tá bom, pequena. Brócolis fica para a semana que vem.
No final, a mesa estava suja, a cadeirinha manchada de laranja e verde, e o bebê tinha a barriga cheia.
Luísa levantou a filha no colo. O cheiro de comida fresca estava na roupa das duas.
— Viu como não é tão difícil?
O bebê arrotou baixinho.
— Boa resposta.
Luísa lavou os potes na pia enquanto a filha brincava com uma colher de plástico no tapete da sala. A água quente corria entre os dedos dela.
Ela pensou na consulta. Na pediatra dizendo: *um alimento novo por vez. Sem sal, sem açúcar. Textura pastosa no começo.*
Parecia simples na teoria.
Na prática, era uma bagunça molhada, alaranjada, cheia de caretas e cusparadas.
Mas a filha tinha comido.
Era o que importava.
*Continua em: insumo-041.md — Temperamento*