Carlos estava no escritório de casa quando o telefone vibrou na mesa. A tela mostrava o nome da mãe: Dona Lúcia.
Ele atendeu.
— Mãe?
— Carlos, eu achei os exames do seu pai. Estou com eles aqui na mão.
Carlos largou a caneta. Encostou na cadeira.
— Quais exames?
— Os cardiológicos. Os últimos que ele fez antes de falecer. Você pediu para eu ver, não pediu?
— Pedi. — Ele passou a mão no rosto. — Mas não precisa me mostrar, mãe. Fala por cima.
— Que mania de querer saber dessas coisas agora que você vai ser pai de novo. — A voz dela não era de reclamação. Era de preocupação. — Fica pensando nisso, se martirizando.
— Não é martírio, mãe. É prevenção. O pediatra falou que a gente precisa saber o histórico. Que pode ter impacto na bebê.
Houve um silêncio do outro lado. Depois o barulho de folhas sendo manuseadas.
— Seu pai tinha colesterol alto desde os 40. Pressão alta também. O coração dele já não era bom há anos — os médicos falaram que era genético, que o pai dele também tinha problema.
— E o pai do senhor? Meu avô?
— Também. — Dona Lúcia suspirou. — Do lado do seu pai, a genética do coração é pesada.
— E da senhora?
— Meu pai morreu de câncer, como eu já disse. Minha mãe de velhice. Do meu lado não tem história de coração.
Carlos fez contas na cabeça. Do lado do pai, coração. Do lado da mãe, mais limpo. Ele e a filha tinham 50% de cada.
— E o que a senhora acha que eu devo fazer? — ele perguntou.
— Cuidar da saúde. — A voz dela ficou mais firme. — Não é segredo. Comer bem, fazer exercício, não fumar, não beber demais. A genética pode dar a tendência, mas você pode lutar contra.
— E para a bebê?
— Para ela é mais simples. Acompanhamento pediátrico, exames de rotina, alimentação saudável desde cedo. — Ela fez uma pausa. — Carlos, seu pai não cuidou da saúde. Trabalhou demais, comeu mal, não fez exercício. Se ele tivesse cuidado, talvez ainda estivesse aqui.
Carlos fechou os olhos. A cadeira rangeu quando ele mudou de posição.
— Tô com medo, mãe.
— Medo do quê?
— De passar isso para ela. De ela herdar o coração ruim, a pressão, as coisas que o pai tinha.
— Carlos. — A voz da mãe suavizou. — Olha para você. Você tem 30 anos. Seus exames são bons. Você corre, cuida da alimentação. Você já está fazendo diferente.
— E se não for suficiente?
— Se não for suficiente, você vai tratar. Você vai acompanhar. Você vai fazer para a sua filha o que o seu pai não fez por ele mesmo.
Carlos respirou fundo. O barulho da rua entrava pela janela. O Toby latiu lá fora.
— Obrigado, mãe.
— De nada, filho. E para de se preocupar. Deixa que a sua filha já nasce com saúde.
— Tô tentando.
— Tenta melhor.
Carlos riu baixinho.
— Vou tentar.
Desligou o telefone. Ficou sentado na cadeira, o monitor do computador em standby, a caneta ainda na mesa.
Ele olhou para o quadro na parede — uma foto dele, Pedro e Luísa no parque, o sol no fundo.
Pegou a caneta. Abriu o bloco de notas.
Escreveu: *Agendar check-up geral. Levar histórico do pai no consultório.*
A caneta fez um risco firme no papel.
*Continua em: insumo-040.md — Alimentação*