Eram três da manhã quando o choro começou.
Carlos abriu os olhos no escuro. O quarto estava silencioso, exceto pelo barulho fino e insistente que vinha do berço ao lado da cama. Ele olhou para o teto. Contou até três.
O choro não parou.
Ao lado, Luísa nem se mexeu. Ela tinha dormido há duas horas depois de uma sessão de amamentação que tinha durado quarenta minutos. Carlos passou a mão no rosto. Levantou.
O chão estava frio sob os pés. Ele foi tateando até o berço, os olhos ainda se acostumando com a escuridão. A luz da rua entrava pela fresta da cortina, desenhando uma listra prateada no chão.
— Calma, pequena. Calma.
Ele pegou o bebê no colo. O corpinho estava quente, agitado, os braços se movendo sem direção. O choro continuou.
Carlos começou a andar. Para lá e para cá, o mesmo percurso entre o berço e a janela. Passos lentos. Um balanço suave.
Nada.
Ele tentou cantar baixinho. Uma música que não lembrava de onde tinha vindo. A voz dele saiu rouca, fora do tom.
O bebê continuou chorando.
Carlos sentou na poltrona perto da janela. Olhou para a rua vazia, o poste aceso, as folhas da árvore na calçada imóveis. O choro enchia o quarto.
— Tá, filha. O que você quer?
Ele tentou de tudo. Trocou a fralda. Ofereceu o peito — ela não quis. Aqueceu uma mamadeira que Luísa tinha deixado pronta na geladeira. Ela mamou um pouco, arrotou, e voltou a chorar.
Carlos sentiu o cansaço pesar nos ombros. O relógio na parede marcava 3h47.
Ele apoiou o bebê no ombro, a cabeça dela encaixada no pescoço dele. E começou a andar de novo. Passos lentos. A mão dele dava tapinhas leves nas costas dela.
E então, sem aviso, o choro parou.
Carlos congelou. Não mudou o ritmo da mão. Não mudou a posição. Continuou andando.
O bebê suspirou. Um suspiro molhado, irregular, que terminou num ronco baixinho.
Ela tinha dormido.
Carlos continuou andando por mais cinco minutos, só para ter certeza. Depois, com cuidado de ladrão, colocou ela de volta no berço. As costas dele doeram quando se endireitou.
Ele ficou parado olhando para o berço. A respiração da filha era leve, regular.
Na manhã seguinte, tomaram café na cozinha. Luísa com o bebê no colo, Carlos com a caneca de café entre as mãos.
— Ela acordou de madrugada — ele disse.
— Eu sei. Ouvi você andando. — Luísa mordeu o canto do pão. — Funcionou?
— No final, sim. Mas demorou uma hora.
— Uma hora?
— É. Eu tentei tudo. Fralda, peito, mamadeira. Nada. Só funcionou quando eu andei com ela no colo.
Luísa olhou para ele. O sol da manhã entrava pela janela.
— Uma hora andando?
— Isso.
Ela riu baixinho.
— Seu braço não doeu?
— Doeu. Mas ela dormiu.
— Você é pai mesmo.
Carlos sorriu. Olhou para o bebê — a filha dele dormia no colo da Luísa, o rostinho virado para o lado, os lábios entreabertos.
— Amanhã eu tento de novo — ele disse. — Quem sabe na segunda vez ela dorme mais rápido.
O café estava quente. A manhã estava começando.
*Continua em: insumo-036.md — Incluir crianças no treino*