Como incluir o irmão mais velho na rotina do bebê?

Luísa

O consultório do veterinário tinha cheiro de álcool e ração. Toby estava sentado no chão de cerâmica, o rabo abanando devagar, a coleira nova brilhando sob a luz fluorescente.

Luísa estava agachada ao lado de Pedro, que segurava a guia com as duas mãos. O adolescente tinha vindo com ela no sábado — Carlos tinha falado com ele sobre o bebê na semana passada, e Luísa queria que Pedro continuasse participando.

— Ele vai levar uma agulhada hoje? — Pedro perguntou.

— Só uma picadinha — a veterinária respondeu. Era uma moça jovem, de jaleco azul e cabelo preso num rabo de cavalo. — Ele nem vai sentir.

— Toby não gosta de agulha. — Pedro olhou para o cachorro. — Quando ele tomou a primeira vacina, ele chorou.

— Todo cachorro chora na primeira vez. — A veterinária sorriu. — Mas depois eles acostumam. Fica mais fácil.

— Nem sempre — Pedro disse.

Luísa observou a cena em silêncio. O jeito que Pedro falava com a veterinária era diferente do jeito que falava com ela ou com o pai. Mais solto. Mais à vontade.

A veterinária se agachou na frente de Pedro, na altura dos olhos.

— Você cuida do Toby?

— Meio que sim. — Pedro deu de ombros. — Encho a vasilha de água, solto ele pra fazer xixi.

— Sabia que cuidar de cachorro é um bom treino para cuidar de irmão mais novo?

Pedro franziu a testa.

— Como assim?

— Você aprende a prestar atenção no outro. A saber a hora que ele está com fome, com sono, com vontade de brincar. É parecido.

Luísa segurou a respiração. Pedro olhou para Toby, depois para a veterinária.

— Mas irmão não late.

A veterinária riu.

— Não. Mas chora. E você vai aprender a diferença entre o choro de fome e o choro de desconforto. É parecido com o Toby quando ele quer sair ou quando ele quer comer.

Pedro ficou em silêncio. Passou a mão na cabeça do Toby.

— Ele vai nascer quando? — Pedro perguntou, sem olhar para Luísa.

— Em alguns meses — Luísa respondeu. A voz saiu mais calma do que ela esperava. — Você vai ter tempo de aprender.

— Eu posso ajudar? — Pedro perguntou. A voz soou mais baixa, mais hesitante.

— Pode. — Luísa sentiu um aperto no peito. — Você vai ser o irmão mais velho. É um cargo importante.

Pedro olhou para ela. Os olhos dele estavam mais abertos agora.

— Cargo importante como?

— Você quem vai mostrar o mundo para ele. — Luísa sorriu. — Ensinar as coisas que você já sabe. As músicas, os jogos, os segredos.

A veterinária terminou a aplicação. Toby nem se mexeu.

— Pronto. — Ela passou a mão na cabeça de Toby. — Corajoso esse aqui.

Pedro levantou. Segurou a guia com mais firmeza.

— Vamos, Toby.

O cachorro abanou o rabo e saiu andando na frente. Luísa pagou a consulta e encontrou os dois na calçada. O sol da tarde já estava baixo, e a sombra de Pedro se alongava no chão.

— Luísa? — Pedro chamou.

— Fala.

— Aquele negócio que a veterinária falou — ele disse, sem olhar para ela. — Sobre aprender a cuidar. É verdade?

— É.

— Então tá bom.

Pedro começou a andar. Toby acompanhava o passo dele, o rabo abanando. Luísa ficou parada por um segundo, vendo os dois seguirem na frente.

Respirou fundo. Depois foi atrás.

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