Como falar com o filho mais velho sobre a chegada do irmão?

Carlos

O sábado tinha chegado com sol aberto e a sacada do Ap 302 já estava com a porta de correr aberta. Carlos ouvia o barulho do Toby latindo lá embaixo, na praça, enquanto arrumava a mesa da sala.

Pedro chegava às dez.

Carlos colocou dois copos de suco na mesa de centro. Ajeitou a almofada do sofá. Olhou para o berço no canto da sala — o bebê ainda não tinha chegado, mas o berço já estava lá, montado há duas semanas.

Ele sentou. Esperou.

Quando a chave girou na fechadura, o coração dele deu um pulo. A porta abriu e Pedro entrou com a mochila pendurada num ombro, o boné virado pra trás.

— Fala, pai.

— Fala, filho. — Carlos se levantou. Abraçou Pedro com um tapinha nas costas. — Bateu fome?

— Sempre.

Pedro largou a mochila perto do sofá e foi direto para a cozinha. Abriu a geladeira. Pegou o suco que o pai tinha deixado preparado.

Carlos ficou parado no meio da sala, vendo o filho com a cabeça dentro da geladeira. A luz fria iluminava o rosto dele. Os catorze anos tinham chegado rápido demais.

— Pai, tem alguma coisa diferente aqui.

Pedro saiu da cozinha com o copo na mão. Olhou em volta.

— O berço.

Carlos engoliu seco.

— É. Senta aqui.

Pedro sentou na ponta do sofá. Olhou para o berço. Depois para o pai.

— Vai ter bebê mesmo?

— Vai.

— E você tá preparado?

Carlos riu. Uma risada curta, meio nervosa.

— Não sei. Acho que ninguém fica preparado de verdade.

Pedro bebeu um gole de suco. Os olhos dele estavam no chão de porcelanato, no desenho que a luz do sol fazia.

— E você? — Carlos perguntou. A voz saiu mais baixa do que ele queria. — Como você se sente com isso?

Pedro demorou para responder. Passou o dedo na borda do copo.

— Não sei direito. É estranho pensar que vou ter um irmão. Quer dizer, meio-irmão.

— Meio-irmão não. — Carlos inclinou o corpo para frente. — Irmão. Ponto.

Pedro olhou para ele. O sol da manhã batia no rosto dos dois.

— Mas ele vai morar aqui? — Pedro perguntou.

— Vai.

— E quando eu vier, vou ter que dividir o quarto?

— Não. Você tem seu quarto. O bebê vai ficar no berço na sala por enquanto, depois no quarto com a gente.

Pedro ficou em silêncio. A expressão dele era difícil de ler — adolescente típico, o rosto fechado, os olhos no copo de suco.

Carlos sentiu o estômago apertar. Ele queria perguntar mais, queria saber se Pedro estava feliz, bravo, preocupado. Mas ficou calado. Esperou.

— Tá bom — Pedro disse finalmente. — Vai ser legal. Tipo, ter um bebezinho em casa.

— Você acha?

— Sei lá. Diferente. — Pedro deu de ombros. — Mas o Toby vai ficar louco.

Carlos riu de verdade dessa vez. A tensão no peito diminuiu um pouco.

— Toby vai amar. Ele adora coisa nova.

Pedro terminou o suco. Bateu o copo vazio na mesa de centro.

— Pai, posso ir no quarto? Quero terminar um negócio no celular.

— Pode.

Pedro levantou. Parou na porta do corredor.

— Pai.

— Fala.

— Não vai ser tão ruim, não. — A voz dele estava mais séria agora. — Eu vou ajudar.

Carlos não conseguiu responder. Só acenou com a cabeça.

Pedro entrou no quarto. A porta fechou com um clique.

Carlos ficou sentado no sofá, olhando para o berço vazio no canto da sala. A luz do sol tinha mudado de posição no chão. O Toby latiu lá fora de novo.

*Continua em: insumo-032.md — Saúde dos pais*