Como pedir ajuda para febre?

Carlos

A febre voltou no fim da tarde. Luísa tinha ido ao pediatra pela manhã — o médico examinou o Antônio, disse que era viral, que ia passar. Receitou dipirona em gotas, banho morno, observação. Mas às 17h o termômetro marcou 39.1.

Carlos chegou do trabalho e viu a cena: Luísa no sofá, o Antônio no colo, os olhos vermelhos de cansaço. A testa do bebê brilhava de suor.

— Subiu de novo — ela disse.

— Vamos pro hospital.

— O pediatra falou que se subir...

— Vamos. Eu levo.

Ele não esperou resposta. Pegou a bolsa da maternidade — já estava pronta perto da porta, com fraldas, uma troca de roupa, o termômetro. Colocou o Antônio no bebê-conforto, encaixou no carrinho-basenado banco de trás.

— Você vem? — ele perguntou.

— Tô exausta, Carlos. Não dormi ontem. Vai você.

Ele hesitou. Uma parte dele queria que ela fosse junto. A parte que sabia que ela era melhor nisso — as perguntas certas, a calma, a segurança. Mas o cansaço no rosto dela era maior.

— Eu vou. Qualquer coisa, te ligo.

No carro, o Antônio chorava. Não era um choro forte — era um chorinho miúdo, insistente, que apertava o peito do Carlos. Ele dirigia com uma mão, a outra estendida para trás, tocando o ombro do bebê.

— Calma, filho. Tá tudo bem. Papai tá aqui.

A frase saiu sozinha. Ele repetiu três vezes durante o caminho. Não sabia se era pro Antônio ou pra ele.

O pronto-socorro infantil tinha uma recepção cheia. Pais com crianças no colo, uma senhora com um bebê no carrinho, um menino de uns cinco anos com o braço enfaixado. O ar condicionado forte, o cheiro de álcool gel.

Carlos entrou com o bebê-conforto na mão. Foi direto ao balcão, a ficha de emergência já preenchida no celular.

— Meu filho tá com febre. 39.1.

A recepcionista olhou, pegou a ficha.

— Nome?

— Antônio Tolentino Almeida.

— Idade?

— Um mês e meio.

Ela parou. Levantou a cabeça.

— Um mês e meio? Vou chamar a triagem na hora. Senta ali.

Carlos sentou numa cadeira de plástico, o bebê-conforto ao lado. O Antônio tinha parado de chorar. Os olhos vidrados, a respiração rápida. Ele tocou a testa do filho com os dedos — quente.

— Carlos? — uma voz.

Era uma enfermeira de avental azul, prancheta na mão.

— Isso.

— Pode vir.

Ele entrou na sala de triagem. A enfermeira pesou o Antônio, mediu a temperatura no reto — 39.3. Escutou o peito, olhou os olhos, a garganta.

— Tá com amigdalite viral — ela disse. — O médico vai passar um antitérmico e observar. Mas com essa idade, a gente sempre prefere manter em observação por algumas horas. O senhor pode esperar?

— Posso.

A enfermeira anotou, entregou uma pulseirinha amarela para colocar no Antônio.

— Leva ele pra sala de observação. O médico já vai.

Carlos pegou o bebê no colo — o Antônio estava leve, pequeno, o corpinho inteiro cabia nos braços dele. Levou para a sala, deitou na maca, sentou na cadeira ao lado. A luz era fria, branca. O som de monitores apitando baixo.

Uma médica entrou vinte minutos depois. Uma mulher jovem, cabelo preso, jaleco branco. Leu o prontuário, olhou o Antônio, escutou.

— É viral — ela confirmou. — Mas com um mês e meio, a gente não arrisca. Vou pedir um hemograma e um exame de urina. Só pra descartar infecção bacteriana.

— Tá.

— O senhor prefere ficar aqui ou esperar lá fora?

— Aqui.

A médica saiu. Carlos ficou sozinho com o Antônio. O bebê dormia, a respiração mais calma. Ele olhou o peito do filho subindo e descendo. A pulseirinha amarela no punho pequeno.

O celular vibrou. Luísa: *Tá tudo bem?*

Ele respondeu: *Tá em observação. Viral. Vai fazer exames. Fica tranquila.*

Depois: *Agradece a gente ter ligado pro pediatra ontem. A enfermeira falou que se a gente esperasse mais, podia complicar.*

Ela respondeu: *Respira. Você tá indo bem.*

Ele guardou o celular. Olhou o Antônio de novo. Uma hora depois, a médica voltou.

— O hemograma tá bom. Urina normal. Pode levar pra casa. Antitérmico de 6 em 6 horas se a febre subir. Se passar de 39.5, volta.

— Obrigado, doutora.

Ele pegou o Antônio, colocou no bebê-conforto, saiu do hospital. A noite tinha caído. O ar da rua era mais fresco que o do pronto-socorro. Ele sentiu o peso do filho nas mãos, o corpo pequeno, o calor que tinha baixado.

No carro, antes de ligar o motor, ficou um minuto olhando o Antônio no banco de trás. A pulseirinha amarela ainda no pulso.

— A gente conseguiu, filho.

A voz sumiu no escuro do carro. Ele ligou o motor, foi embora.

*Continua em: livreto-030.md — Luísa e os primeiros dias*