A testa do Antônio estava quente. Luísa sentiu quando encostou os lábios na cabeça dele, depois da mamada das 3h da manhã. O calor diferente, mais seco, mais intenso que o calor normal do corpo do bebê.
Ela ligou o abajur do criado-mudo. A luz amarela iluminou o rosto do Antônio — ele estava acordado, os olhos abertos, um choro fraco que não era de fome nem de sono. Era um choro diferente.
Luísa sentou na cama, colocou o bebê no colo. A mão dela na nuca dele — quente demais. Ela pegou o termômetro digital no criado-mudo, passou na testa do Antônio.
O aparelho apitou baixo: 38.7°C.
O coração dela acelerou, mas ela fez o que sempre fazia quando o medo vinha: respirou fundo, devagar, três vezes. Depois pegou o celular.
O número do pediatra estava na lista de favoritos — ela colocou ali no mesmo dia da primeira consulta. As 3h17 da manhã. Ela hesitou um segundo. Ninguém gosta de ligar de madrugada. Mas ela lembrou do que o pediatra disse na primeira consulta: *"Febre em bebê com menos de 3 meses é sempre pra ligar. Não importa o horário."*
Ela ligou.
O telefone chamou três vezes. Uma voz masculina, rouca de sono, atendeu.
— Alô?
— Doutor, desculpa ligar tão tarde. É a Luísa, mãe do Antônio. Ele tá com 38.7 de febre.
Uma pausa. Barulho de cama. O doutor devia ter sentado.
— Quantos meses ele tem?
— Um mês e meio.
— Respiração?
— Normal.
— Chorando?
— Sim, mas não é choro forte. É um chorinho.
— Molhado? A fralda?
— Trocada há uma hora. Molhada normal.
— Vomita?
— Não.
— A primeira coisa é não entrar em pânico. Febre não é doença, é sintoma. O corpo tá reagindo. A temperatura que a gente mede na testa ou no reto?
— Testa.
— OK, 38.7 na testa. Com um mês e meio, eu quero ver ele. Não é caso de UTI, mas eu prefiro examinar. Traz ele no consultório amanhã de manhã, primeiro horário. Sete horas.
— Não precisa ir pro hospital agora?
— Pela descrição, não. Mas fica de olho. Se subir pra 39.5, se ele ficar mole, se não aceitar o peito, aí sim. Me liga de novo.
— O que eu faço até amanhã?
— Tira o excesso de roupa. Deixa ele com um body fino e a fralda. Dá banho morno. Não usa água fria — o choque térmico sobe a temperatura. E oferece o peito mais vezes. A hidratação é o mais importante. Se ele não quiser mamar ou se bobear, aí me liga de novo. Anotou?
— Anotei.
— Respira, Luísa. Você tá fazendo o certo em ligar.
Ela desligou. Colocou o celular no criado-mudo. Olhou o Antônio — os olhos dele encontraram os dela. Ela passou a mão na cabeça do bebê, sentiu o calor na palma.
Levantou, foi até o banheiro. Encheu a banheirinha com água morna — testou com o cotovelo, como a enfermeira ensinou na maternidade. Tirou a roupa do Antônio, deixou só o body fino. Colocou ele na água devagar.
Ele chorou no primeiro contato. Depois parou. Os olhos abertos, as mãozinhas fechadas. Luísa passou a mão na barriga dele, nos bracinhos, nas pernas. A água morna escorria entre os dedos.
— Tá tudo bem, meu amor. A mamãe tá aqui.
O banho durou cinco minutos. Ela tirou ele, secou com a toalha macia, vestiu só o body e a fralda. Colocou no colo, sentou na poltrona da sala. O apartamento estava escuro, a luz da rua entrando pela cortina. Toby apareceu, deitou no pé da poltrona.
Luísa ofereceu o peito. Antônio mamou devagar, com os olhos fechando. A cada minuto, ela tocava a testa dele com os lábios. Esperando o calor baixar.
Depois de vinte minutos, ele dormiu. Ela colocou ele no moisés, na sala mesmo, perto dela. Não voltou pro quarto. Ficou na poltrona, o celular na mão, o termômetro ao lado.
A noite passou devagar. Ela não dormiu direito — acordava a cada meia hora, tocava a testa do Antônio, via a respiração subir e descer. O termômetro marcou 38.2 às 5h. 37.9 às 6h.
O sol ia clareando a cortina. O Antônio acordou, chorou baixo, faminto. Ela amamentou de novo. A testa dele estava mais fresca, o calor tinha baixado.
— Tá melhor, meu amor.
Ela pegou o celular, mandou mensagem pro Carlos: *Antônio amanheceu com febre. Vou levar no pediatra às 7h. Ele tá melhor, mas vou levar pra garantir.*
Depois mandou pro pediatra: *37.9 agora. Mantive sem roupa, banho morno, peito. Tô indo.*
Quando o Carlos chegou na sala, de cueca e camiseta, o cabelo bagunçado, ela já estava com o Antônio no colo, a bolsa da maternidade pronta, o celular no bolso.
— Ele tá bem?
— Tá melhor. Mas vou levar.
— Vou com você.
Ela olhou pra ele. A preocupação no rosto dele. A mão dele na nuca dela, um toque rápido.
— Não precisa. Vai trabalhar. Depois te conto.
— Tem certeza?
— Certeza. Mas obrigada.
Ele beijou a testa dela. Depois a testa do Antônio.
— Porta aberta.
Ela pegou a bolsa, o bebê no sling, as chaves. O sol da manhã já iluminava a rua. A febre tinha baixado. O medo ainda estava ali, mas menor.
*Continua em: livreto-029.md — Carlos leva o bebê ao pronto-socorro*