Como registrar o nascimento?

Carlos

O cartório ficava no centro, num prédio antigo de janelas altas. Carlos parou na porta, a pasta debaixo do braço, a certidão de nascimento do hospital dentro de um envelope pardo. O sol da manhã batia na fachada de pedra. Ele respirou fundo e empurrou a porta de vidro.

O cheiro de papel velho e tinta de carimbo. O balcão de madeira escura, lustrada de tanto uso. Duas pessoas na fila — uma senhora com uma pasta verde, um rapaz de terno segurando um contrato. Carlos entrou na fila, atrás do rapaz.

O ar condicionado era fraco. O ventilador de teto girava devagar, as pás barulhentas. Ele olhou os avisos na parede — preços de certidão, horários de atendimento, um cartaz desbotado sobre regularização de imóveis.

A fila andava devagar. O rapaz do terno foi atendido, saiu com um papel na mão. A senhora da pasta verde foi chamada.

Carlos ficou sozinho na fila. Passou a mão na nuca. A pasta debaixo do braço estava suando na capa de couro.

— O próximo.

A atendente era uma mulher de cabelo grisalho, óculos de aro fino, a voz paciente. Carlos chegou no balcão.

— Bom dia. Eu quero registrar um nascimento.

— O bebê nasceu onde?

— No Hospital São Lucas. — Ele entregou o envelope. — Aqui estão os documentos.

Ela abriu o envelope, tirou a certidão de nascido vivo, a Declaração de Nascimento. Leu em silêncio.

— Nome do bebê?

Carlos sentiu o peito apertar. O nome estava na ponta da língua. Ele e Luísa discutiram por semanas. No fim, escolheram juntos, depois do jantar, com o Toby deitado no pé da mesa.

— Antônio. Antônio Tolentino Almeida.

A atendente escreveu no formulário. A caneta deslizou no papel.

— Nome do pai?

— Carlos Eduardo Almeida.

— Nome da mãe?

— Luísa Tolentino Martins Almeida.

Ela anotou. Virou a página.

— Data de nascimento?

Ele falou a data. As palavras saíram mais firmes agora.

— Naturalidade do bebê? Mesmo local de nascimento?

— Sim.

Ela continuou preenchendo. O barulho do carimbo batendo em outro balcão. O telefone tocando ao fundo. A vida do cartório continuava em volta, mas Carlos estava focado naquela folha, naquela caneta, naquelas palavras que estavam virando documento.

— O senhor precisa de quantas vias?

— Duas. Uma pra gente e uma pro passaporte.

A atendente ergueu a cabeça.

— Vai viajar?

— Minha esposa quer registrar no consulado também. Ela tem cidadania.

— Então duas vias. Fica R$ 42,00 a primeira via, R$ 28,00 a segunda.

Carlos pagou. Ela carimbou o comprovante, entregou a senha.

— O documento fica pronto em três dias úteis. O senhor volta com esse comprovante e retira aqui mesmo.

— Três dias?

— Se quiser urgência, sai em 24 horas. Mas custa mais.

— Quanto?

— O dobro.

Carlos calculou rápido. O dinheiro estava contado — as contas do mês, o enxoval, a babá. Mas o registro do filho... Não dava pra esperar três dias. Ele queria segurar o papel, mostrar pra Luísa, pendurar na parede se fosse preciso.

— Faz a urgência então.

A atendente anotou. O carimbo bateu no papel com um baque seco. Ela destacou o comprovante, entregou.

— Passado amanhã, depois das 14h, o senhor pode retirar.

— Obrigado.

Ele guardou o comprovante dentro da pasta, apertou a mão no bolso, sentiu o papel ali dentro. Saiu do cartório pisando mais firme que na entrada.

Na calçada, o sol batia forte. Ele sentou num banco de praça em frente, tirou o celular, ligou pra Luísa.

— Alô?

— Registrei. Antônio Tolentino Almeida. Oficial.

Do outro lado, um silêncio. Depois uma respiração funda.

— Oficial?

— Oficial. Passado amanhã a gente vai buscar a certidão.

— Eu tô chorando, sabia?

— Eu também.

Ele não estava, mas a voz tremia um pouco. Sentou no banco, olhou o prédio do cartório, a fachada antiga de pedra. O nome do filho dele estava num papel, arquivado, real. Não era mais só uma ideia. Era documento.

— Carlos?

— Tô aqui.

— Obrigada por ter ido.

— Não precisa agradecer. É meu filho também.

Ele desligou, guardou o celular. Ficou mais um minuto olhando o movimento da rua. O sol no rosto. O comprovante no bolso. O nome do filho na ponta da língua.

*Fim*