Como pedir para aquecer a mamadeira?

Luísa

A caixa estava em cima da mesa da sala, aberta. O aquecedor de mamadeira ainda envolto no plástico bolha. Ao lado, três mamadeiras de vidro, dois bicos de silicone, uma escova para lavagem. O enxoval ocupava metade da sala — pacotes de fralda empilhados, um moisés no canto, um carrinho encostado na parede.

Luísa puxou o aquecedor para fora da caixa. O plástico bolha estalou entre os dedos. Colocou o aparelho na bancada da cozinha, leu o manual por cima. Depois encheu uma mamadeira com água da torneira, encaixou no suporte, apertou o botão.

O aquecedor fez um zumbido baixo. A luz verde acendeu.

Toby veio da sala, o rabo abanando. Cheirou o pé dela, depois o pé da bancada, como se perguntasse o que estava acontecendo.

— É o aquecedor, Toby. Pra esquentar leite.

Ele deitou no chão da cozinha, o focinho entre as patas, observando.

O zumbido continuou. Luísa olhou o relógio. O manual dizia três a cinco minutos para aquecer. Ela esperou quatro. Quando a luz apagou, ela pegou a mamadeira. O vidro estava morno na mão. Ela pingou algumas gotas no pulso — uma dica que leu em algum lugar, num fórum de mães, no meio da noite, enquanto não conseguia dormir.

A temperatura estava boa. Nem fria, nem quente.

Ela colocou a mamadeira de volta no suporte, ligou o aquecedor de novo. Dessa vez com leite. Queria testar com o líquido de verdade, não só com água.

O zumbido encheu a cozinha de novo. Ela ficou olhando o aparelho, as mãos apoiadas na bancada. O leite estava na geladeira, guardado. O bebê ainda não tinha nascido, mas ela já estava ali, testando o aquecedor, preparando o espaço.

— Lu?

A voz do Carlos veio da sala. Ela ouviu os passos dele, o barulho do sofá quando ele sentou.

— Tô na cozinha.

Ele apareceu na porta, a camisa azul clara com as mangas dobradas até o cotovelo. Olhou a bancada, o aquecedor, a mamadeira.

— Testando?

— Testando.

Ele chegou perto, olhou o aparelho.

— Funciona?

— Funciona. — Ela despejou as gotinhas no pulso de novo. — Mas cada mamadeira vai ser um teste. O leite sai da geladeira, o tempo muda. Vou ter que ajustar.

— Você já pensou em tudo.

— Não tudo. Mas essa parte, sim.

A campainha tocou. Toby latiu, saiu correndo para a porta. Luísa secou as mãos no pano de prato. — Deve ser a Simone.

Simone era a babá. Três dias de trabalho na semana, desde a semana passada. Chegava às 9h, saía às 15h. Luísa abriu a porta. Simone estava com uma bolsa transversal, o cabelo preso num coque frouxo. Toby pulou nela, mas ela já conhecia o cachorro — abaixou, passou a mão na cabeça dele.

— Oi, Toby. Oi, dona Luísa.

— Entra, Simone. Quer ver uma coisa?

Simone entrou, largou a bolsa no sofá. Luísa levou ela até a cozinha, mostrou o aquecedor.

— Comprei essa semana. Tô testando.

— Qual modelo?

Luísa mostrou a caixa. Simone olhou, assentiu.

— É bom. Mas com leite em pó, o tempo é diferente do leite líquido. E o congelado também.

— Como assim?

— Leite em pó esquenta mais rápido. O congelado demora mais. A senhora vai ter que testar cada tipo.

Luísa anotou mentalmente. Mais testes.

— Outra coisa — Simone disse. — A senhora vai precisar de uma bolsa térmica pra sair. Se for aquecer fora de casa.

— Já comprei.

— Ótimo.

Luísa pegou a mamadeira, entregou para Simone.

— Testa aqui. Vê se tá boa.

Simone pingou no pulso. Sentiu com a ponta dos dedos depois.

— Tá boa. Mas podia estar um pouquinho mais quente. O bebê vai mamar devagar, vai esfriar no meio do caminho. Se começar um pouco mais quente, termina na temperatura certa.

Luísa ligou o aquecedor de novo. Mais trinta segundos. A segunda mamadeira pingou no pulso dela.

— Agora sim.

Simone sorriu.

— A senhora pegou rápido.

— Eu pesquiso.

— Isso é bom.

Luísa desligou o aquecedor, guardou a mamadeira na pia. O leite de teste foi para o ralo. Ela enxaguou o vidro, colocou de cabeça para baixo no escorredor.

— Quando o bebê chegar — ela disse —, eu quero que a senhora me mostre como faz. Na prática. A senhora sabe de coisas que o manual não ensina.

Simone inclinou a cabeça.

— Posso ensinar.

— Então combinado.

A luz da manhã entrava pela janela. Toby tinha voltado para o tapete da sala, o rabo abanando enquanto dormia. O aquecedor estava na bancada, desligado, esperando o próximo teste. O enxoval ocupava a sala. O bebê estava chegando.

Luísa sabia que não ia acertar de primeira. Mas também sabia que podia perguntar.

*Fim*