A sala estava arrumada. Os papéis na mesa de centro. O contrato impresso em duas vias. Uma jarra de água com gelo e dois copos. Luísa ajustou o blazer vermelho bordô antes de sentar.
Márcia estava no sofá em frente. Duas semanas de trabalho. O suficiente para saber se ia funcionar ou não.
— Como estão as coisas? — Luísa perguntou.
— Boas. Seu Antônio ainda reclama de manhã, mas depois do café ele melhora.
— E o banho?
— Ainda resiste. Mas a gente chegou num acordo: ele toma banho sozinho, eu fico do lado de fora da porta, ouvindo. Se precisar, ele chama.
Luísa anotou mentalmente. Um avanço.
— Ótimo. — Ela pegou o contrato. — Esse é o combinado final. A gente já conversou sobre a maior parte, mas quero deixar claro por escrito.
Márcia inclinou o corpo para frente, as mãos nos joelhos.
— Primeiro: horário. 8h às 17h, de segunda a sexta. Se precisar ficar além, a gente combina e paga hora extra. — Luísa apontou a cláusula. — Segundo: as atribuições. Cuidados pessoais, alimentação, companhia, leve organização da casa. Não inclui reforma, faxina pesada, nem cuidar de outras pessoas.
— Tá claro.
— Terceiro: limites. Se o Seu Antônio estiver de mau humor, a senhora não precisa aturar desaforo. Pode sair do ambiente, chamar a gente, dar um tempo. A senhora não é saco de pancada.
Márcia ergueu as sobrancelhas.
— Isso é incomum de ouvir.
— É importante.
— Quarto: a senhora tem direito a 15 minutos de descanso pela manhã, 15 à tarde, e uma hora de almoço. Pode usar o espaço da casa — a cozinha, a varanda. A senhora não é funcionária invisível.
Márcia ficou em silêncio. Ajeitou a bolsa no colo.
— Posso falar uma coisa, dona Luísa?
— Pode.
— Das famílias que eu trabalhei, a senhora é a primeira que senta e explica os limites. Tanto os meus quanto os da casa.
Luísa não soube o que dizer.
— A maioria só quer saber do que eu posso fazer. Não do que eu não posso. — Márcia sorriu, um sorriso pequeno, sincero. — Isso faz diferença.
Luísa olhou para o contrato. As palavras impressas. Os limites desenhados.
— A gente aprendeu do jeito difícil — ela disse. — Com a outra candidata. A gente não conversou direito antes, e não deu certo. Então dessa vez a gente quis fazer diferente.
Márcia pegou a caneta, assinou o contrato. A tinta azul no papel.
— Pode deixar que vou cuidar bem do seu Antônio.
— Eu sei.
Luísa assinou também. As duas vias. Uma para cada.
O sol da tarde entrava pela janela. Toby veio da cozinha, deitou no tapete entre as duas. A casa estava em ordem. O cuidador contratado. Os limites estabelecidos.
— Pronto — Luísa disse, fechando a pasta. — Agora é fazer dar certo.
*Fim*