Como monitorar sem parecer desconfiado?

Carlos**

O carro estacionou duas casas antes da casa do Seu Antônio. O sol das 10h da manhã batia no para-brisa. Carlos desligou o motor, ficou olhando o portão azul por alguns segundos. Toby, no banco de trás, colocou a cabeça entre os bancos, o focinho molhado no ombro do dono.

— Calma, Toby.

Ele não queria parecer que estava fiscalizando. Mas também não queria deixar o pai dele aos cuidados de uma pessoa que ele mal conhecia, sem nunca aparecer. Era o segundo dia da Márcia.

Carlos abriu a porta do carro. Toby pulou, a coleira vermelha balançando. O cachorro foi direto para o portão, o rabo abanando.

Ele tocou a campainha.

Um minuto. A porta da casa abriu. Márcia apareceu na soleira, um avental florido amarrado na cintura.

— Seu Carlos? — ela perguntou, surpresa mas não alarmada.

— Boa dia. Eu passei aqui perto e resolvi dar uma aparecida. — Ele passou a mão na nuca. — O senhor não avisou que vinha — ela disse, mas o tom era leve. — Seu Antônio tá na varanda. Tava regando as plantas.

Carlos entrou. A casa estava arrumada. O cheiro de café fresco na cozinha. Uma panela no fogão, tampada. A televisão ligada baixo no canal de notícias.

Na varanda, Seu Antônio estava com o regador na mão, despejando água devagar no vaso de samambaia.

— Oi, pai.

Seu Antônio virou a cabeça.

— O cê veio ver se eu tô vivo?

— Vim ver como você tá.

Ele bufou, mas não era bravo. Continuou regando.

— A Márcia fez café — ele disse, apontando com o queixo para dentro. — Tá fresquinho.

Carlos olhou para Márcia, que estava na porta da cozinha, enxugando as mãos no avental.

— Quer um café, seu Carlos?

— Aceito.

Ele sentou na cadeira da varanda. O sol da manhã aquecia o braço. Toby deitou aos pés dele, a língua para fora.

— Tudo bem até agora? — ele perguntou, numa voz baixa, para não soar como uma auditoria.

Márcia chegou com a xícara. O café preto, quente, cheiro forte.

— Tudo bem. Ele comeu um pão com manteiga no café da manhã. Leu o jornal. Agora tá cuidando das plantas. Mais tarde vou fazer um almoço leve.

— Ele não reclamou?

— Reclamou um pouco. Mas desviou.

— Desviou?

— Ofereci um café. Ele esqueceu do que tava reclamando.

Carlos riu baixinho. Pegou a xícara, sentiu o calor na palma.

— Obrigado. Sério.

— É o trabalho, seu Carlos.

Ele bebeu o café. O sabor forte, quente, caseiro. O pai dele regando as plantas. A Márcia na cozinha, arrumando a louça. A casa normal, funcionando.

Não era preciso desconfiar. Era só aparecer. Não como chefe, mas como filho.

*Continua em: livreto-025.md — Luísa estabelece limites*