O bar era pequeno, meia-luz, música baixa. Carlos chegou primeiro. Pediu duas cervejas, acomodou a caneca e o celular na mesa de madeira. O barulho do salão ao fundo — conversas, copos, uma televisão ligada no futebol mudo.
Beto chegou cinco minutos depois. O paletó pendurado no ombro, a camisa social suada no colarinho. Sentou pesado na cadeira, pegou a cerveja, bebeu um gole longo.
— Preciso disso.
— Dia puxado? — Carlos perguntou.
— Loja cheia, funcionário faltou, cliente reclamou. O normal.
Beto apoiou os cotovelos na mesa. Olhou o irmão.
— Então, fala. O que você queria conversar?
Carlos tomou um gole de cerveja. A bebida gelada, o amargor na língua. Ele ensaiou o discurso no caminho até o bar. Agora as palavras estavam na garganta.
— A Márcia vai começar semana que vem. A gente contratou.
— Sei. A Luísa me contou.
— A gente precisa dividir os custos.
Beto não respondeu de cara. Pegou a cerveja, bebeu.
— Quanto é?
— R$ 1.200 por semana. Mais R$ 60 de transporte.
Beto fez as contas rápido, no olhar.
— Dá uns R$ 5.200 por mês.
— É.
— Dividido entre a gente?
— Eu pensei em dividir em três. Eu, você e a Clarinha.
— Ela não pode pagar. Ela é estagiária.
— Sei. Mas ela pode pagar um terço reduzido. Tipo R$ 500. O resto divide entre mim e você.
Beto ficou em silêncio. O som da televisão, o burburinho do bar. Ele girou a caneca na mesa.
— Eu posso pagar R$ 2.000 por mês — ele disse. — Mais que isso aperta.
Carlos calculou rápido. R$ 2.000 do Beto. R$ 500 da Clarinha. O resto ele cobria. Dava uns R$ 2.700 para ele.
— Fecha — ele disse.
— Fecha? — Beto ergueu a sobrancelha. — Você não vai negociar?
— Você disse que pode pagar R$ 2.000. Eu cubro o resto. Tá bom.
Beto olhou para ele. Um olhar diferente, como se estivesse vendo o irmão mais novo de outro ângulo.
— Você mudou — ele disse.
— Mudei?
— Antes você não puxava essas conversas. Ficava quieto, esperava alguém resolver.
Carlos pensou. Lembrou das outras vezes — quando a conta do pai atrasou, quando o conserto da casa precisou ser feito, quando a Dona Lúcia ficou doente. Ele sempre deixou o Beto resolver.
— Talvez eu tenha aprendido.
Beto pegou a cerveja, estendeu na direção do irmão.
— Então saúde.
Carlos brindou. O vidro bateu. O líquido gelado desceu.
A conversa tinha sido mais rápida do que ele imaginava. O dinheiro ainda era um assunto desconfortável, mas não tinha doído tanto quanto ele pensou que doeria.
*Continua em: livreto-024.md — Carlos monitora cuidador*